terça-feira, outubro 24, 2006

[81 / Self-Inflicted Sabotage]

Idealização
Seria uma apresentação rápida e simples. Não valia a pena haver pensamentos exagerados. Toda a preocupação mínima acerca dela deveria ser rotulada de excessiva, até porque o peso deste exercício de comunicação seria nulo na avaliação da cadeira.
Pouco tempo levou até se encontrar o material mais adequado para ser divulgado, indo de acordo com os padrões temáticos sugeridos pela docente.
Tinha sido fácil, em grupo, escrever todos os argumentos que dariam sentido às palavras proferidas pelo porta-voz do grupo; esse porta-voz que eu conheço como ninguém, de tantos anos viver dentro da sua pele. Perspicazmente se tinham apagado as pequenas lacunas que surgiam à medida que se confrontavam ideias entre os membros do grupo. Tudo estava pronto para ser divulgado aos cérebros que se encontrariam naquela precisa aula.
Entraria na aula sem pensar nos minutos iminentes nos quais teria todas as atenções dirigidas para mim. No momento indicado, levantar-me-ia da minha cadeira, iria para perto do quadro, mostraria o filme escolhido pelo grupo de trabalho, falaria calma e perceptivelmente para as pessoas, escolhendo as palavras indicadas, e não sentindo nervosismo. Responderia a possíveis perguntas formuladas pela docente. Voltaria ao meu lugar e sentar-me-ia, dando vez ao grupo seguinte.


Realidade
A componente teórica dessa aula prolongou-se para além do previsto, pelo que apenas os grupos que não escolheram programas de prevenção em saúde mental em formato electrónico os apresentariam nessa aula. O meu grupo, tal como já referi, tinha optado por um filme retirado da internet.
A minha apresentação passou automaticamente para a semana seguinte. Foi pena... Já estava mentalizado para fazer a apresentação nesse dia…
A semana passou.
Cheguei atrasado à aula. Quando surgiu o momento de ir apresentar, não encontrava no meu caderno os argumentos redigidos. Uma colega do grupo perguntou-me se preferia levar o caderno dela (aberto prontamente na página em que ela os tinha escrito). Não me iria sentir confortável por ter de decifrar as palavras da caligrafia dela (não é que fosse uma caligrafia discrepante da minha, mas seria necessário debruçar-me durante mais tempo sobre o caderno dela em plena apresentação) e a disposição com que espalhou as frases.
Outro grupo ofereceu-se para apresentar o seu trabalho nesta vaga temporal. Pude então procurar menos sofregamente pelas páginas do meu caderno o precioso conteúdo que parecia ser invisível nesse momento. Encontrei o que queria. Esperei pela minha vez, caindo no erro de focar a minha atenção na apresentação do grupo actual.
Surgiu o momento de me levantar e ir para perto do quadro. O nosso pequeno filme sobre prevenção da violência doméstica foi divulgado. Teve boa aceitação por parte de quem o viu dentro daquelas quatro paredes. Houve mesmo suspiros de indignação face às estatísticas brutais que eram apresentadas.
O filme termina. A minha comunicação inicia-se.
Que discrepância... Rapidamente me apercebo que me começo a afundar nas palavras erradas com que começo as frases. Não me consigo lembrar dos argumentos que tinha escrito no caderno (algo que naturalmente ocorre a qualquer pessoa que não relê, ao fim de uma semana, as palavras que era suposto ter praticamente decorado e exercitado previamente). O nervosismo é evidente. Passo a ser o actor numa peça de teatro em que o público fica com a sensação de que ele não estudou convenientemente o seu papel. Os holofotes iluminam-no. O início da frase é proferida. Surge uma pausa inesperada. O silêncio põe a descoberto a expectativa do público face às palavras do desamparado actor. Os meus olhos cravam-se no caderno. Tento ver rapidamente as palavras escritas. O ponto sussura-lhe as deixas, mas nem assim ele consegue improvisar. Precisa de ouvir as frases na sua totalidade. Limito-me a ler o que tenho escrito no caderno, inserindo pontualmente umas palavras diferentes. Fico com a sensação de que me repito, porque no início da apresentação divaguei, tentando dizer aquilo que me lembrava remotamente do que tinha escrito no caderno. O nervosismo do actor é bastante evidente para o público. A cena demora o seu tempo até acabar, mas o desejado final acaba por vir. Leio as palavras até ao fim. Não surgem perguntas da parte da docente: alívio sentido por mim, associado a um estranho sentimento de injusto facilitismo. O meu nervosismo deve ter sido tão notório que a docente preferiu não me questionar absolutamente nada acerca do modo como o meu grupo encontrou aquela informação. Foi o único grupo a não ser confrontado com questões.
Sentei-me no meu lugar acompanhado de uma sensação de falhanço.


Porque não consigo veicular oralmente as minhas ideias do mesmo modo que o faço através da escrita? Porque fico preso à noção de que tudo o que eu digo em directo está a ser avaliado pelo público? Porque sinto que é avaliado aquilo que digo, e a forma como o digo? Porque me sinto refém deste tipo de avaliação social? Porque não sou uma daquelas pessoas que fala com convicção inabalável em apresentações deste cariz?

1 comentário:

JB disse...

A meu ver, o medo de falhar provoca-nos esse tipo de reacções. Apodera-se de nós e controla-lo é praticamente impossível. Quando escrevemos temos sempre uma fortaleza chamada privacidade que nos protege. E mesmo que depois as nossas palavras cheguem a alguém que as lê, o momento em que as escrevemos foi nosso, só nosso.