sexta-feira, outubro 06, 2006

[77 / The Grip]

Naquela manhã que nunca mais será alcançada por qualquer um de nós, ele acabava de chegar à cidade.
Não ligou a quem estava à sua volta. Não quis saber que trajectos percorriam os outros, nem se interessou pelos motivos que os levavam também a pisar as pedras daquela praça de grandes dimensões.
À medida que ia caminhando com uma expressão neutra (talvez contemplativa, abdicando das expectativas que raramente se afiguravam realistas pela positiva), o seu olhar fixou-se num relógio gravado na parede de uma das várias fachadas altas. Era um daqueles que obrigam o cérebro a identificar a posição dos ponteiros e traduzir a especificidade do seu ângulo em números. É uma tradução que faz com os seres humanos se sintam mais confortáveis, dado que assim pensam conseguir controlar melhor a sua rotina. Mas a rotina de um ser biológico vivo é efémera. Todos nós chegaremos a essa conclusão mais cedo ou mais tarde.
Ele fez a tradução. Memorizou a informação que decifrou. Olhou para o seu relógio analógico. A hora deveria condizer. Não lhe interessava. Preferia os pensamentos que o absorviam interiormente. Começava a desprender-se da negatividade que a conscienciosidade pode trazer por vezes.
Subitamente decidiu ceder ao pensamento que lhe dizia para continuar.

Oh, que discrepância rapaz… As pessoas que tenham olhado para ti devem ter avistado o sorriso esboçado nessa face. Mas será que viram a vivacidade daquele olhar que indica que naquele preciso momento carregavas em ti a maior convicção que o mundo alguma vez vira?

2 comentários:

Anónimo disse...

O rapaz fez muito bem em ceder ao pensamento de continuar :) De facto, a nossa vida é efémera, mas tem vivências tão bonitas que vale a pena ficarem registadas e vale a pena partilha-las! Um acontecimento negativo não deve ser suficiente para anula-las! Assim, a efemeridade torna-se mais difusa!

açrof!

The Perfect Drug disse...

No teu blog vai a "settings", "comments" e na opção "enable comment moderation" escolhes "yes".

La vie est si belle!