terça-feira, outubro 31, 2006

[82 / Oh, Really?]

Numa aula relativamente recente ouvi uma colega de curso desabafar a uma amiga em baixo volume que "já passei por más experiências que não desejo ao meu pior inimigo”.
Sorri ao ouvir aquilo.
Sorri, não de felicidade. Sorri, confesso, de uma leve ironia. Não é que não respeite o sofrimento que ela alega ter passado (e que eu não faço ideia de qual a especificidade contextual que o despoletou). Qualquer sofrimento merece o seu respeito.
A minha falta de apreço pela afirmação deve-se ao facto de ela provir de alguém cujo comportamento é incompatível com o conteúdo das palavras que proferiu. Alguém que não age na maioria das vezes com conscienciosidade social não revela grande respeito pelos outros. Alguém que interrompe sistematicamente conversas recorrendo a um maior número de décibeis, arrisca-se a decapitar a reputação silenciosa que lhe tenho confiado até àquele momento. Alguém que claramente avança e pára em frente a outra pessoa que já lá estava, dando-lhe o privilégio de ver as suas costas ao pormenor, desilude qualquer vítima (oh, quantas vezes isso se vê em grupos que dançam nos bares e que de repente se fecham à frente dos outros num abrir e fechar de olhos, e oh, que costas lindas, e oh, quantas vezes se dá um passo em frente para a reinserção, e oh, o fenómeno volta a ocorrer momentos mais tarde, e oh, há sempre um pequeno grupo fixo de pessoas a quem isto nunca acontece, e oh, isto não ocorre apenas debaixo de tectos musicais, e oh, o que estará a pessoa prejudicada a pensar nesses precisos momentos?).
Sobrevalorizam-se as pessoas que se manifestam exaustivamente. As que se auto-promovem sem fundamento aparente. As socialmente atenciosas e simpáticas (o reforço pode espreitar a qualquer esquina, não é verdade?). As que adquirem o sorriso plástico pronto a ser exibido em qualquer ocasião. As que retiram esse mesmo sorriso quando já não está por perto alguém a quem lhes interessa passar a imagem de que conhecem metade dos habitantes deste mundo. As que absorvem ilegitimamente as atenções. As que fazem sentir que os outros são um marasmo. As que manipulam as actividades ao sabor dos seus caprichos. As que vêem as suas vontades efémeras serem temporariamente saciadas pelos outros. As visivelmente dinâmicas. Seja lá o que isso for. Independentementemente da produtividade oca que isso fornece ao mundo. Porque aparentemente o mundo não sobrevive sem espectáculo.

Como se estas palavras fossem mudar alguma coisa...

Como se a minha opinião silenciosa interessasse...

terça-feira, outubro 24, 2006

[81 / Self-Inflicted Sabotage]

Idealização
Seria uma apresentação rápida e simples. Não valia a pena haver pensamentos exagerados. Toda a preocupação mínima acerca dela deveria ser rotulada de excessiva, até porque o peso deste exercício de comunicação seria nulo na avaliação da cadeira.
Pouco tempo levou até se encontrar o material mais adequado para ser divulgado, indo de acordo com os padrões temáticos sugeridos pela docente.
Tinha sido fácil, em grupo, escrever todos os argumentos que dariam sentido às palavras proferidas pelo porta-voz do grupo; esse porta-voz que eu conheço como ninguém, de tantos anos viver dentro da sua pele. Perspicazmente se tinham apagado as pequenas lacunas que surgiam à medida que se confrontavam ideias entre os membros do grupo. Tudo estava pronto para ser divulgado aos cérebros que se encontrariam naquela precisa aula.
Entraria na aula sem pensar nos minutos iminentes nos quais teria todas as atenções dirigidas para mim. No momento indicado, levantar-me-ia da minha cadeira, iria para perto do quadro, mostraria o filme escolhido pelo grupo de trabalho, falaria calma e perceptivelmente para as pessoas, escolhendo as palavras indicadas, e não sentindo nervosismo. Responderia a possíveis perguntas formuladas pela docente. Voltaria ao meu lugar e sentar-me-ia, dando vez ao grupo seguinte.


Realidade
A componente teórica dessa aula prolongou-se para além do previsto, pelo que apenas os grupos que não escolheram programas de prevenção em saúde mental em formato electrónico os apresentariam nessa aula. O meu grupo, tal como já referi, tinha optado por um filme retirado da internet.
A minha apresentação passou automaticamente para a semana seguinte. Foi pena... Já estava mentalizado para fazer a apresentação nesse dia…
A semana passou.
Cheguei atrasado à aula. Quando surgiu o momento de ir apresentar, não encontrava no meu caderno os argumentos redigidos. Uma colega do grupo perguntou-me se preferia levar o caderno dela (aberto prontamente na página em que ela os tinha escrito). Não me iria sentir confortável por ter de decifrar as palavras da caligrafia dela (não é que fosse uma caligrafia discrepante da minha, mas seria necessário debruçar-me durante mais tempo sobre o caderno dela em plena apresentação) e a disposição com que espalhou as frases.
Outro grupo ofereceu-se para apresentar o seu trabalho nesta vaga temporal. Pude então procurar menos sofregamente pelas páginas do meu caderno o precioso conteúdo que parecia ser invisível nesse momento. Encontrei o que queria. Esperei pela minha vez, caindo no erro de focar a minha atenção na apresentação do grupo actual.
Surgiu o momento de me levantar e ir para perto do quadro. O nosso pequeno filme sobre prevenção da violência doméstica foi divulgado. Teve boa aceitação por parte de quem o viu dentro daquelas quatro paredes. Houve mesmo suspiros de indignação face às estatísticas brutais que eram apresentadas.
O filme termina. A minha comunicação inicia-se.
Que discrepância... Rapidamente me apercebo que me começo a afundar nas palavras erradas com que começo as frases. Não me consigo lembrar dos argumentos que tinha escrito no caderno (algo que naturalmente ocorre a qualquer pessoa que não relê, ao fim de uma semana, as palavras que era suposto ter praticamente decorado e exercitado previamente). O nervosismo é evidente. Passo a ser o actor numa peça de teatro em que o público fica com a sensação de que ele não estudou convenientemente o seu papel. Os holofotes iluminam-no. O início da frase é proferida. Surge uma pausa inesperada. O silêncio põe a descoberto a expectativa do público face às palavras do desamparado actor. Os meus olhos cravam-se no caderno. Tento ver rapidamente as palavras escritas. O ponto sussura-lhe as deixas, mas nem assim ele consegue improvisar. Precisa de ouvir as frases na sua totalidade. Limito-me a ler o que tenho escrito no caderno, inserindo pontualmente umas palavras diferentes. Fico com a sensação de que me repito, porque no início da apresentação divaguei, tentando dizer aquilo que me lembrava remotamente do que tinha escrito no caderno. O nervosismo do actor é bastante evidente para o público. A cena demora o seu tempo até acabar, mas o desejado final acaba por vir. Leio as palavras até ao fim. Não surgem perguntas da parte da docente: alívio sentido por mim, associado a um estranho sentimento de injusto facilitismo. O meu nervosismo deve ter sido tão notório que a docente preferiu não me questionar absolutamente nada acerca do modo como o meu grupo encontrou aquela informação. Foi o único grupo a não ser confrontado com questões.
Sentei-me no meu lugar acompanhado de uma sensação de falhanço.


Porque não consigo veicular oralmente as minhas ideias do mesmo modo que o faço através da escrita? Porque fico preso à noção de que tudo o que eu digo em directo está a ser avaliado pelo público? Porque sinto que é avaliado aquilo que digo, e a forma como o digo? Porque me sinto refém deste tipo de avaliação social? Porque não sou uma daquelas pessoas que fala com convicção inabalável em apresentações deste cariz?

quarta-feira, outubro 18, 2006

[80 / Possess Me Eternally, Miss]

Finalmente sinto a tua presença. O tempo passou sem que eu te pudesse reencontrar. Procurei-te afincadamente, mas fui impedida de te descobrir. A tua outra metade (sim, a negativa) barrou-me o caminho e impediu-te de regressar à superfície. Mas agora voltaste a mostrar a tua outra face. Trepaste incansavelmente. Faço uma vénia ao teu esforço heróico. Ao sucesso da tua sobrevivência. Encontrei-te e não quero voltar a perder-te.
Passou algum tempo desde a última vez que nos vimos. Deixa-me olhar-te de frente. Ver esses olhos que conheci tão bem. Ver a tua cara que me tem sido familiar nestes últimos anos. Reconheço essa imagem: está igual àquela a que me habituei. Quero tocar-te. Dar-te o abraço que não se vê mas apenas se sente. Não me vês mas sentes e agradeces a minha presença. Sinto-me grata por poder estar contigo de novo.
Quero ver-te na globalidade. Quero entrar no teu interior. Avaliar o teu estado mental. Deixas-me? Não me ouves. Vou fazê-lo na mesma. Serei uma legítima intrusa do teu íntimo. Sei que não te importas. Também estou consciente de que infelizmente não sou a primeira a fazê-lo. Vou aceder delicadamente ao teu cérebro.
Mas... Que negatividade brutal é esta? Que conteúdo mórbido é esse nos teus pensamentos? Que mazelas irreversíveis apresentas? Por que razão estás diferente? Os teus níveis de libertação de neurotransmissores estão diferentes... O teu cérebro está claramente bem desenvolvido nas secções responsáveis pelas emoções negativas. Elas têm sido notoriamente exercitadas recentemente durante a maior parte dos dias. Sim, estão preparadas para entrarem de novo em acção. O caminho está aberto para isso.
Porque me sinto preocupada apesar de estar presente? Presumo que a estabilidade da minha proximidade é ténue. Não, não pode ser. Não te quero voltar a perder. Tenho medo que desapareças por um tempo indeterminado e preocupante. O que despoletará o regresso forçado da minha ausência?
O abraço que te dou não é suficiente. Tento agarrar-te ferozmente. Encubro-te. Camuflo-te. Tenho-te seguro. Estou a proteger-te. Agradeço a parte dos teus mecanismos mentais que me têm ajudado nesta tarefa. Eles ampliam o meu alcance. Estou aqui. Quero continuar aqui. Precisas de mim. Deixas de pensar em sobrevivência quando sentes que estou a vigiar-te e a tocar-te. Procuras desesperadamente falar comigo. Queres-me como teu vínculo permanente.
Mas és escorregadio. Deslizarás pelas minhas mãos caso haja um abalo considerável. Voltarás a cair naquele buraco escuro, largo e profundo onde mora o desconsolo humano. Voltarás a estatelar-te. Quero evitar isso a todo o custo. A nova queda poderá ser fatal. Grito-te. Imploro-te que não me abandones. Aprisiono-te, mas as correntes são quebradiças. Tento desviar a tua atenção dos estímulos externos agressivos.
Que rudimentar é a minha intervenção... Apenas posso contar com a tua força interior e isso faz-me sentir impotente...
Envergonho-me da minha intermitência. Sinto culpa de cada vez que te vês forçado a seguir os trilhos que não queres pisar. Ponho em causa a minha dignidade quando me apercebo que os teus medos se tornam reais, um a um, e te consomem lenta e dolorosamente...
Há tantos como tu... Não fazes ideia de quantos são ou quão próximos de ti estão... Tantos os que gritam pela minha presença mas eu não os consigo resgatar...
Sinto-me ofuscada pela escuridão do terror que te quer envolver. É difícil travar os intermináveis combates. Somos forças antagónicas de igual envergadura. Continuo a lutar pelo reconhecimento global do meu nome. Este nome inalcançável para muitos...
Eu. Dificilmente eu: resiliência.

sábado, outubro 14, 2006

[79 / Weak Connections]

Cada vez mais ponho em evidência mental os conceitos de “equifinalidade” e “multifinalidade”. Sim... Bertalanffy criou uma daquelas teorias que eu pensava que eram apenas para decorar, mas que acabou por se tornar involuntariamente numa ferramenta útil para a minha habitual avaliação do quotidiano: um pequeno mas importante desporto a que recorro. Uma actividade que pode ser muito perigosa e auto-destrutiva por vezes. Desconheço ainda as regras pela qual ela se rege.
Houve uma altura na minha vida em que comecei a pensar que talvez houvesse certos momentos em que as pessoas exagerassem aquilo que realmente sentiam. O motivo para o fazerem? Não o sabia. Ainda hoje não o sei. Cada qual terá as suas razões secretas para o fazer.
O que despoletou em mim esse pensamento foi um intercâmbio que tive com uma turma de uma escola secundária nacional. Na primeira fase dele, a minha turma foi morar durante três ou quatro dias nas casas dos alunos da outra turma. Repito: três ou quatro dias, numa cidade diferente e relativamente distante, em que as únicas caras familiares são as que se vêem sempre que as actividades lectivas englobavam as duas turmas. Após esse tempo, cada um de nós estaria a cargo do aluno responsável por nos alojar.
Para mim esses dias foram extremamente desgastantes e deprimentes. Ansiava pelo regresso a casa, onde me esperava o conforto da rotina que gostava de ter na altura. O mesmo não se passou com outras pessoas da turma. Ao fim desses três ou quatro dias, alguns deles tiveram a necessidade de mostrar ao mundo as lágrimas que a despedida lhes trazia.
Acredito que talvez num ou noutro caso as lágrimas se tenham devido a paixões fracas que a distância se encarregaria de dissolver mais tarde. Repito: num ou noutro caso. Não na maioria dos casos. Então porquê de tudo isto? Porquê fingir uma ligação forte inexistente? Não havia ali alívio por se voltar a casa? Todos nós sabíamos que não nasceriam grandes frutos daquela experiência.
Que razões pessoais levaram àquela equifinalidade: vários motivos levaram ao mesmo resultado de choro e tristeza superficial.
Porque está disseminado este fenómeno? Não me refiro a casos de intercâmbio, mas sim à superficialidade de certos comportamentos. Por que razão o repetimos em variados contextos?

segunda-feira, outubro 09, 2006

[78 / Statistics]

Durante um banho, ao som de música que pode ser considerada pesada (não vejo nada de pesado em letras negras e realistas):

- percentagem de pensamentos positivos: 5%.
- percentagem de pensamentos negativos: 95%.

sexta-feira, outubro 06, 2006

[77 / The Grip]

Naquela manhã que nunca mais será alcançada por qualquer um de nós, ele acabava de chegar à cidade.
Não ligou a quem estava à sua volta. Não quis saber que trajectos percorriam os outros, nem se interessou pelos motivos que os levavam também a pisar as pedras daquela praça de grandes dimensões.
À medida que ia caminhando com uma expressão neutra (talvez contemplativa, abdicando das expectativas que raramente se afiguravam realistas pela positiva), o seu olhar fixou-se num relógio gravado na parede de uma das várias fachadas altas. Era um daqueles que obrigam o cérebro a identificar a posição dos ponteiros e traduzir a especificidade do seu ângulo em números. É uma tradução que faz com os seres humanos se sintam mais confortáveis, dado que assim pensam conseguir controlar melhor a sua rotina. Mas a rotina de um ser biológico vivo é efémera. Todos nós chegaremos a essa conclusão mais cedo ou mais tarde.
Ele fez a tradução. Memorizou a informação que decifrou. Olhou para o seu relógio analógico. A hora deveria condizer. Não lhe interessava. Preferia os pensamentos que o absorviam interiormente. Começava a desprender-se da negatividade que a conscienciosidade pode trazer por vezes.
Subitamente decidiu ceder ao pensamento que lhe dizia para continuar.

Oh, que discrepância rapaz… As pessoas que tenham olhado para ti devem ter avistado o sorriso esboçado nessa face. Mas será que viram a vivacidade daquele olhar que indica que naquele preciso momento carregavas em ti a maior convicção que o mundo alguma vez vira?

domingo, setembro 03, 2006

[75 / A Lição]

Hi Alanis. I know this is my second entry, but I really want you to take a look at this picture.
I found it a few years ago in my Psychology book and I fell in love with it.The picture was taken by an artist called Ana Esquível. The title of the picture is "A Lição" (The Lesson).
I think this picture portrays in an excellent way the whole process of socialization or the introduction to this unchosen heritage: culture.
The girl seems to be such a rebel and fresh human being. The old man is the one who possesses the popular wisdom and he is teaching a part of it to the girl. Therefore, the girl's rebelness is being silently tamed. A slow and effective brainwash that will have positive and negative consequences: the girl will be given the chance to fit in her culture, but at the same time her thoughts will also be "contaminated" by ethnocentrism.

João Gil Martins
Portugal

domingo, agosto 27, 2006

[74 / Yin / Yang]


This is one of my favourite photos. I'm addicted to experimental photography, so I always try to take some "borderline" pictures and post the selected ones on my personal fotolog. It somehow represents my openness to diversity and creativity, and I expect others to be open-minded as well.
I remember being really impressed when I just saw the preview of this picture I had just taken on my digital camera (it was taken that way; no software was used).
There's not really a rational reason for me to like it. The image speaks for itself. I like the visual content of it. I gave it the title [Yin / Yang].

João Gil Martins
Portugal

sexta-feira, agosto 25, 2006

[73 / About The Growth That Resilience Brings]

É gratificante olhar para trás e ver o túnel que nos fez crescer. Mas atravessá-lo custa tanto...

quinta-feira, agosto 10, 2006

[72 / To An Unknown Lover]

Numa noite em que o vento teime em permanecer ausente, e o calor se lembre de me agasalhar, irei a uma praia.
A escuridão não constitui problema porque a lua cheia serve-me de lanterna natural.
Avanço pelo areal, com passos lentos mas decididos, saboreando a beleza natural daquele momento mágico que a atmosfera me proporciona. Sento-me. Fico atraído pela conjugação estonteante do calor nocturno, ar estático com fluidez invisível, ausência de sons incómodos, imobilidade da massa líquida a que as pessoas chamam de “oceano” (nem uma única onda, naquilo a que eu poderia denominar de “lago oceânico”). A água, sim, a água; esse manto negro (sempre foste um camaleão fiel ao céu cuja cor reflectes) que silenciosamente abriga seres vivos cuja visão do mundo em nada se assemelha à dos que vivem acima da superfície. Não iria certamente reparar em nenhum deles numa noite tão mágica como esta. A minha atenção seria exclusivamente focal; era tempo de abdicar da atenção difusa que iria perturbar este momento único. Todas as distracções seriam postas de parte.
Neste exercício de concentração retomo a essência de quem sou e esqueço todas as bárbaras provas a que fui submetido ao longo da vida, cujo objectivo (explícito ou implícito) se traduz em derrubar a crença e o gosto na maturidade intra e interpessoal. Sinto-me preparado para a purificação.
Levanto-me e continuo a seguir o caminho que tinha sido interrompido para poder apreciar dignamente a Natureza que compõe aquela praia. Fortaleço-me a cada passo, mas o processo não está ainda completo. Paro no momento oportuno. Prestes a atravessar a fronteira. Um pequeno passo. Transponho-a. Não sinto nenhuma diferença de temperatura quando a minha pele humedece. Nesse preciso momento começo a ouvir uma música sublime. Quem a conhecesse diria “Where It Belongs – Nine Inch Nails”.
Não contenho a força da emoção. Uma lágrima deverá cair nesse preciso momento. A verticalidade da gravidade delimita o seu breve percurso, fazendo com que se misture com a água salgada que os meus sapatos pisam. É uma lágrima que agora pertence à vastidão líquida que tanto nos dá vida como também nos afoga. Fico feliz por dar o meu contributo orgânico à Natureza. Uma parte de mim subsiste agora na deriva tranquila da água que percorre os cantos do mundo.
É a hora. Avanço novamente. Embrenho-me lentamente na água. A roupa que visto começa a adquirir uma tonalidade mais escura à medida que é molhada. Afasta-se do meu corpo. Volta a acariciar-me. Gosto da vida que parece ter.
Abdico das desilusões a cada centímetro submerso do meu corpo. Lavo-me da banalidade. Decapito as memórias de maltrato, quer por via da negligência quer por via do abuso psicológico. Derrubo as vulnerabilidades que me fizeram refém após uma infância deliciosa. Apago as frustrações de não alcançar aquilo que eu poderia ter sido.
Tudo é absorvido e aniquilado com mestria pelo oceano. Vou dando voz à pessoa que sempre quis expor.
Pouco falta até ter a ponta do meu último cabelo seco rodeada de H2O. Em dois segundos ela afunda-se juntamente com o resto do corpo que ele incorpora. A música passa a ser ouvida esbatidamente. Sinto o abraço que simbolicamente dou a mim mesmo. Tenho uma experiência de ponto máximo que apenas é testemunhada pelos organismos subaquáticos que por acaso lá se encontram. A purificação surge.
Os pulmões pedem-me que lhes devolva o oxigénio. Encontro-me em estado de transição; este momento libertador não pode durar muito tempo. Forçosamente dou ímpeto ao impulso de estender as pernas e voltar a posicionar a boca à superfície. Sinto-me grato pela inspiração. Coloco a face acima do nível da água. Volto a ouvir a música em perfeitas condições.
Regresso purificadamente ao areal e ao mundo oxigenado de onde pertenço.
Vejo-te à minha espera. Sento-me ao teu lado após me ter embrulhado na toalha que me ofereces. Ficamos os dois parados a contemplar a beleza daquele momento que não queremos desperdiçar. Observamos a passagem fugaz de várias estrelas cadentes. O tempo passa indeterminadamente enquanto pensamos na presença constante um do outro. Deixo de apresentar vestígios de humidade. Encostamos as nossas testas e inspiramos ao mesmo tempo que sorrimos de olhos fechados. A música cessa. Os nossos ouvidos captam o som ténue da nossa respiração sincronizada. Sozinhos naquele mundo que é só nosso. Juntos numa cumplicidade que o mundo alguma vez vira.
Segredas-me ao ouvido as palavras mais belas que alguma vez ouvi. Levantamo-nos e contemplamos os nossos olhares. Sinto o toque quente dos teus dedos e unimos as mãos. Os meus polegares afagam as costas das tuas mãos. A música regressa.
Ficamos com o olhar estático, lendo a pureza interior que ambos recebemos. Inspiro a tua expiração próxima. Expiro o ar que é inspirado por ti. A distância física reduz-se. As faces tocam-se ao nível dos lábios. A distância parece continuar a ser esmagadora, pelo que nos aproximamos ainda mais. O beijo é intenso. O abraço permanente que tinha dado a mim mesmo anteriormente torna-se ainda mais forte quando sinto o teu. Sentes exactamente o mesmo quanto ao meu gesto recíproco.
Mantém-se o beijo avassalador debaixo da cumplicidade do luar e do crepitar silencioso das estrelas incandescentes. Separamos as bocas enquanto mantemos o olhar fixo em nós.
Ambos ouvimos um pequeno baque previsível. Sabemos o que está a acontecer.
O pensamento começa a divulgar a uma velocidade estonteante todas as memórias adquiridas ao longo de uma vida. Percebo que o mesmo se passa contigo. É o momento de nos despedirmos daquilo que fomos. Começam a escassear as identidades de todos aqueles que interagiram connosco previamente. São demolidas todas as pontes que nos levem a pensar em terceiros. Não há qualquer tipo de apreensão pela aquisição desta amnésia selectiva. A redenção espera-nos. Os nossos olhares cruzados mantêm-se tranquilos. Somos só tu e eu.
As luzes da civilização começam a afastar-se apesar de permanecermos imóveis. A felicidade invade-nos. Estamos a alcançar a grandeza que desejávamos. Temos uma área grande de solo que nos quer acompanhar.
Quanto tempo levaria até a novidade ser descoberta por um transeunte? Quanto tempo iriam durar as buscas infrutíferas de nós? Isso não é relevante neste momento.
Voltamos a abraçar-nos, orgulhosos por podermos ter todo o tempo que quisermos para exercitarmos a nossa intimidade.
É esta a beleza da derradeira noite em que da costa portuguesa se desprende um pedaço considerável de terreno; ilha à deriva legitimamente usufruída por dois seres humanos que subsistem com a sua presença mútua. A noite em que um novo país secreto se forma, habitado por duas pessoas apaixonadas.

Falta-me a dura parte: ser encontrado. Por onde vagueias?

sexta-feira, agosto 04, 2006

[71 / Unselected Text!]

O meu texto não integra a miríade seleccionada pela Alanis Morissette.
Todos os meses ela escolhe um tema e pede às pessoas para que lhe escrevam acerca desse tema. Como é hábito, a beleza do seu interior faz com que ela aborde perspicazmente assuntos que façam com que as pessoas falem de coisas bastante pessoais.
Senti-me impelido a ir de encontro ao apelo de Julho, cujo tema é "What was one of your biggest turning points in your life - and did you have a revelation from it?".
Algumas das histórias que ela recebeu foram publicadas aqui, na secção Thank U do site dela.

P.S. - O desafio de Agosto pede para enviarmos a nossa foto preferida e explicar o porquê da nossa escolha. ;)

terça-feira, agosto 01, 2006

[70 / Dear John]

Poucas horas faltam para abandonares definitivamente a idade de ouro.
Vais passá-las estupidamente a dormir. Bem sei que já não há privilégios relevantes adquiridos quando se alcança/ultrapassa o vigésimo segundo ano de vida, mas é algo a que terás de te habituar.
Uma vez mais vais querer acordar momentos antes das oito da manhã para te veres ao espelho e imaginares a sala do hospital onde há anos atrás foste confrontado pela primeira vez com a luz solar. Sala essa que os teus pais já não sabem identificar; apenas sabem indicar o corredor. Talvez nunca chegarás a saber ao certo que paredes testemunharam o teu nascimento.
É interessante fazeres a retrospectiva de uma jovem vida durante breves minutos. Analisares o percurso com trilhos ambiguamente decadentes e sublimes que foste forçado a percorrer. Veres o reflexo do teu aspecto físico e conversares mentalmente com a pessoa que os teus olhos observam. Chamares a criança feliz que houve em ti e confrontá-la com o resultado final de uma viagem ao mundo subterrâneo da condição humana. Ambos estranhamente donos do mesmo corpo… Mas irreconhecíveis interiormente.
É tarde para te salvar do teu passado. Será tarde para o meu eu futuro me salvar do meu futuro próximo. As máquinas do tempo ainda não estão disponíveis, nem acredito que algum dia estarão, senão já teríamos sido abordados pelos nossos descendentes. Gostava de te ter podido ajudar quando precisaste, João. Tenho a certeza que o meu eu futuro dirá o mesmo quanto à avalanche de acontecimentos que eu ainda não sei que irão ocorrer.
Não gostei de ver o teu estado nestes últimos dias; parecias disposto a abandonares-te. Não voltes a descer essa gruta. Ainda te vejo a colmatar as fendas do terramoto que te assolou recentemente.
Tenta cimentar as tuas crenças com as ferramentas que possuis. Só assim conseguirás manter a sanidade mental.
Espero ver-te com mais confiança daqui a um ano. Gostava de te assegurar de que poderás estar tranquilo acerca do teu mundo externo, mas isso é-me impossível de controlar.
Desejo-te os mais felizes dos acasos.
Despeço-me aqui, João.
Um abraço.

terça-feira, julho 25, 2006

[69 / Texto Seleccionado?]

Probably the biggest turning point in my life happened when I played a game (Wip3out). I felt I was being given the privilege of getting a glimpse of what our future should be like. Although the game doesn’t really have a plot (in fact it is a mere racing game), I got mesmerized with the concept of it: the futuristic design, the quality sound of it, the amazing atmosphere that the screenshots portray and, especially, the hope in technology as a big help for human beings. It really made me get an astonishing insight. Suddenly, all I wanted was to become a person who would perfectly fit into that advanced world. Probably it was a bit illusive, but I started selecting all my new clothes in order to wear futuristic stuff. It was definitely an hard task…
I had a revelation from it because beyond the fascination with the game, I started analyzing the world in a different way: people seemed to be happy by just following everyone else’s steps. It became clear to me that almost no one dares to achieve success in the creativity field.
I was getting filled with innovative ideas in several areas; one of them is music. I started composing electronic songs (as well as the corresponding videos) in my mind and I really wanted to get an idea of how to bring those songs into reality… Those were songs which wouldn’t fit any genre I’ve ever heard before.
I wanted to spread my insight, so maybe I could trigger independent creativity on someone else’s mind. I felt the urge of being seen as someone who was no longer belonging to the grey crowd.
As our face is our own “busyness card”, I found it to be the perfect place to show what’s on my mind, so I started drawing futuristic design on my face.
A few weeks later I realized that my transparency wasn’t really welcome in my social background (or should I say that I tasted the corrosive flavour of social coercion?). I went back to my cocoon and stayed there for months.
Today I’m a grey guy in the crowd, who still loves to experience freedom in the form of innovative thoughts; the mind became my favourite playground.
Currently I’m studying Psychology at the university and I like to take experimental pictures.
But one thing is certain: if one day I get the chance to be taught all the tricks of how to create quality electronic music, I’ll follow that dream.
After all I’ve learnt that people only get the legitimacy of being a bit eccentric/visionary when they become famous…

João Gil Martins
Portugal

segunda-feira, julho 24, 2006

[68 / Screwing A Group Up]

Para o observador externo, um grupo parecer-lhe-á sempre mais coeso do que ele é na realidade. A partir do momento em que se tornasse um membro atento, iria notar rapidamente que a sua constatação estaria errada.
Iria deparar-se com as resistências pessoais que cada membro tem para com as tomadas de decisão grupais. Iria constatar que há reservas nas palavras que um elemento diz a outro, de modo a camuflar a globalidade da sua opinião acerca deste.
De fora, à distância da imperceptibilidade do conteúdo das palavras proferidas por cada membro, e por muito bem que o observador saiba ler os lábios mudos de alguém, a engrenagem parece estar a funcionar na perfeição, mas os actores sociais que integram a dinâmica grupal, são dotados de individualidade (para o bem e para o mal), estando mais aptos para assinalarem/assinarem as falhas existentes. Só cada um deles sabe como realmente percepciona determinados momentos vividos em comum. E é aí que podem surgir (e mais tarde intensificarem-se/auto-cumprirem-se) as distorções interpretativas.
Mas o que considero desastroso num grupo não é tanto isso. Só tem distorções interpretativas quem não possui tacto, e isso só depende de cada um.
O veneno num grupo envolve os conceitos científicos de ingroup e outgroup (mal sabiam os criadores desses conceitos, que um dia, um estudante de licenciatura, iria usar esses dois conceitos para explicar o fosso em que qualquer grupo se arrisca a cair).

Ingroup _ sentimento de pertença ao grupo
Outgroup _ os outros grupos que não o(s) do indivíduo

Ávidos de conseguirem melhorar a produtividade nas organizações, os responsáveis pela ascensão destes conceitos, referiram-se a eles tendo por base o grupo no seu todo. Mas e se os usarmos a um nível micro? Não conseguem explicar tão bem os problemas que se instalam numa interacção intra-grupal? Sou apologista do “sim!”.
Por exemplo, num determinado grupo em que as saídas são irregulares quanto à assiduidade dos seus membros, haverá certamente momentos em que todos os elementos se encontrem, mas devido à incompatibilidade de horários/vontades, haverá outros tantos momentos nos quais apenas metade (ou menos que isso) dos indivíduos se encontrem. São estes últimos que potenciam a possibilidade de se tentarem criar micro ingroups : os membros que estão em interacção (seja numa díade ou numa tríade) podem tentar valorizar a sua cumplicidade, recorrendo à análise crítica negativa face aos atributos de outros elementos ausentes. Deste modo, favorece-se um novo ingroup de dimensões mais reduzidas, fazendo com que os outros elementos do grupo sejam vistos como outgroup. A partir desse momento, é difícil travar a avalanche crítica. Mas é um esforço a que todos os membros se devem submeter caso queiram evitar a tensão no grupo.

terça-feira, julho 11, 2006

[67 / Massive Attack]

Há poucas horas estava eu no Coliseu do Porto a ver os Massive Attack.
Se houver próxima vez, espero estar na primeira fila (tal como aconteceu há três anos).

Momento alto do concerto de 2003: Teardrop.
Momentos altos do concerto de 2006: Angel + ver o Daddy G passar inesperadamente ao meu lado enquanto estava na fila para adquirir os bilhetes.

[66 / Eyes Shut (or) The Fit Pieces Of A Puzzle]

É estranho apercebermo-nos que algumas pessoas conseguem construir uma visão distorcida acerca dos outros e depois agem em função da ilusão que teimam em ver. (Sim, é verdade que não sou manifestamente
É uma falsa clarividência que conduz a diversos erros e pode trazer variadas consequências... _humilde. Nem serei, porque nunca vi ninguém
Realmente, o que vemos ao espelho não é exactamente o mesmo que os outros vêem em nós. ____sentado na mesma pedra onde eu estive e
E as coisas complicam-se profundamente quando se faz a mesma comparação, mas a nível de personalidade. ___poderei estar novamente.
Aí os tiros no escuro raramente acertam no alvo. _____Para quando está
Há que intervir-se neste tipo de processos antes que seja tarde demais.
E certos pensamentos não devem nunca ser transmitidos para o exterior. agendada a construção de uma ponte segura para esta ilha que
Cresce a olhos vistos esta cumplicidade para comigo mesmo.eu sou? Será
O interno é realmente uma dádiva. _____ uma ponte que une duas ilhas
Torna-se o meu recreio favorito. _________ mutuamente interessadas?)

segunda-feira, julho 03, 2006

[65 / Locked Folder]

Por vezes gostava de ter acesso a uma hipotética lista que incluísse bastante informação acerca de todas as pessoas que já se sentiram atraídas por mim.
Provavelmente iria ficar surpreendido com o seu reduzido número de páginas. Ou talvez por outro lado ficasse impressionado com alguns dos nomes que nela constassem...

Why is it so hard to read everybody's emotional intentions?

sexta-feira, junho 30, 2006

[64 / Looking To The Outside]

Dois textos de leitura crucial, acerca das "almas gémeas": este e este.
Gostei particularmente do apelo implícito que faz a cada um de nós: termos a noção de que numa relação somos respeitados (mesmo pelos nossos defeitos), logo não se devem exigir características impossíveis à outra pessoa.

quinta-feira, junho 29, 2006

[63 / Reincarnation]

Depois de um bom filme fico sempre com aquela sensação estranha de que sou forçado a voltar a viver a minha vida. Uma vida que não tem nada de fascinante quando comparada ao magnetismo daquelas que observei. É sempre a pior parte de qualquer bom filme.
Sentir-me tocado pela história que decorre em frente aos meus olhos e esquecer por minutos a pessoa que sou, o local onde me encontro, as fraquezas e qualidades que possuo, ...
O impacto do regresso a mim é fortíssimo.