terça-feira, outubro 24, 2006

[81 / Self-Inflicted Sabotage]

Idealização
Seria uma apresentação rápida e simples. Não valia a pena haver pensamentos exagerados. Toda a preocupação mínima acerca dela deveria ser rotulada de excessiva, até porque o peso deste exercício de comunicação seria nulo na avaliação da cadeira.
Pouco tempo levou até se encontrar o material mais adequado para ser divulgado, indo de acordo com os padrões temáticos sugeridos pela docente.
Tinha sido fácil, em grupo, escrever todos os argumentos que dariam sentido às palavras proferidas pelo porta-voz do grupo; esse porta-voz que eu conheço como ninguém, de tantos anos viver dentro da sua pele. Perspicazmente se tinham apagado as pequenas lacunas que surgiam à medida que se confrontavam ideias entre os membros do grupo. Tudo estava pronto para ser divulgado aos cérebros que se encontrariam naquela precisa aula.
Entraria na aula sem pensar nos minutos iminentes nos quais teria todas as atenções dirigidas para mim. No momento indicado, levantar-me-ia da minha cadeira, iria para perto do quadro, mostraria o filme escolhido pelo grupo de trabalho, falaria calma e perceptivelmente para as pessoas, escolhendo as palavras indicadas, e não sentindo nervosismo. Responderia a possíveis perguntas formuladas pela docente. Voltaria ao meu lugar e sentar-me-ia, dando vez ao grupo seguinte.


Realidade
A componente teórica dessa aula prolongou-se para além do previsto, pelo que apenas os grupos que não escolheram programas de prevenção em saúde mental em formato electrónico os apresentariam nessa aula. O meu grupo, tal como já referi, tinha optado por um filme retirado da internet.
A minha apresentação passou automaticamente para a semana seguinte. Foi pena... Já estava mentalizado para fazer a apresentação nesse dia…
A semana passou.
Cheguei atrasado à aula. Quando surgiu o momento de ir apresentar, não encontrava no meu caderno os argumentos redigidos. Uma colega do grupo perguntou-me se preferia levar o caderno dela (aberto prontamente na página em que ela os tinha escrito). Não me iria sentir confortável por ter de decifrar as palavras da caligrafia dela (não é que fosse uma caligrafia discrepante da minha, mas seria necessário debruçar-me durante mais tempo sobre o caderno dela em plena apresentação) e a disposição com que espalhou as frases.
Outro grupo ofereceu-se para apresentar o seu trabalho nesta vaga temporal. Pude então procurar menos sofregamente pelas páginas do meu caderno o precioso conteúdo que parecia ser invisível nesse momento. Encontrei o que queria. Esperei pela minha vez, caindo no erro de focar a minha atenção na apresentação do grupo actual.
Surgiu o momento de me levantar e ir para perto do quadro. O nosso pequeno filme sobre prevenção da violência doméstica foi divulgado. Teve boa aceitação por parte de quem o viu dentro daquelas quatro paredes. Houve mesmo suspiros de indignação face às estatísticas brutais que eram apresentadas.
O filme termina. A minha comunicação inicia-se.
Que discrepância... Rapidamente me apercebo que me começo a afundar nas palavras erradas com que começo as frases. Não me consigo lembrar dos argumentos que tinha escrito no caderno (algo que naturalmente ocorre a qualquer pessoa que não relê, ao fim de uma semana, as palavras que era suposto ter praticamente decorado e exercitado previamente). O nervosismo é evidente. Passo a ser o actor numa peça de teatro em que o público fica com a sensação de que ele não estudou convenientemente o seu papel. Os holofotes iluminam-no. O início da frase é proferida. Surge uma pausa inesperada. O silêncio põe a descoberto a expectativa do público face às palavras do desamparado actor. Os meus olhos cravam-se no caderno. Tento ver rapidamente as palavras escritas. O ponto sussura-lhe as deixas, mas nem assim ele consegue improvisar. Precisa de ouvir as frases na sua totalidade. Limito-me a ler o que tenho escrito no caderno, inserindo pontualmente umas palavras diferentes. Fico com a sensação de que me repito, porque no início da apresentação divaguei, tentando dizer aquilo que me lembrava remotamente do que tinha escrito no caderno. O nervosismo do actor é bastante evidente para o público. A cena demora o seu tempo até acabar, mas o desejado final acaba por vir. Leio as palavras até ao fim. Não surgem perguntas da parte da docente: alívio sentido por mim, associado a um estranho sentimento de injusto facilitismo. O meu nervosismo deve ter sido tão notório que a docente preferiu não me questionar absolutamente nada acerca do modo como o meu grupo encontrou aquela informação. Foi o único grupo a não ser confrontado com questões.
Sentei-me no meu lugar acompanhado de uma sensação de falhanço.


Porque não consigo veicular oralmente as minhas ideias do mesmo modo que o faço através da escrita? Porque fico preso à noção de que tudo o que eu digo em directo está a ser avaliado pelo público? Porque sinto que é avaliado aquilo que digo, e a forma como o digo? Porque me sinto refém deste tipo de avaliação social? Porque não sou uma daquelas pessoas que fala com convicção inabalável em apresentações deste cariz?

quarta-feira, outubro 18, 2006

[80 / Possess Me Eternally, Miss]

Finalmente sinto a tua presença. O tempo passou sem que eu te pudesse reencontrar. Procurei-te afincadamente, mas fui impedida de te descobrir. A tua outra metade (sim, a negativa) barrou-me o caminho e impediu-te de regressar à superfície. Mas agora voltaste a mostrar a tua outra face. Trepaste incansavelmente. Faço uma vénia ao teu esforço heróico. Ao sucesso da tua sobrevivência. Encontrei-te e não quero voltar a perder-te.
Passou algum tempo desde a última vez que nos vimos. Deixa-me olhar-te de frente. Ver esses olhos que conheci tão bem. Ver a tua cara que me tem sido familiar nestes últimos anos. Reconheço essa imagem: está igual àquela a que me habituei. Quero tocar-te. Dar-te o abraço que não se vê mas apenas se sente. Não me vês mas sentes e agradeces a minha presença. Sinto-me grata por poder estar contigo de novo.
Quero ver-te na globalidade. Quero entrar no teu interior. Avaliar o teu estado mental. Deixas-me? Não me ouves. Vou fazê-lo na mesma. Serei uma legítima intrusa do teu íntimo. Sei que não te importas. Também estou consciente de que infelizmente não sou a primeira a fazê-lo. Vou aceder delicadamente ao teu cérebro.
Mas... Que negatividade brutal é esta? Que conteúdo mórbido é esse nos teus pensamentos? Que mazelas irreversíveis apresentas? Por que razão estás diferente? Os teus níveis de libertação de neurotransmissores estão diferentes... O teu cérebro está claramente bem desenvolvido nas secções responsáveis pelas emoções negativas. Elas têm sido notoriamente exercitadas recentemente durante a maior parte dos dias. Sim, estão preparadas para entrarem de novo em acção. O caminho está aberto para isso.
Porque me sinto preocupada apesar de estar presente? Presumo que a estabilidade da minha proximidade é ténue. Não, não pode ser. Não te quero voltar a perder. Tenho medo que desapareças por um tempo indeterminado e preocupante. O que despoletará o regresso forçado da minha ausência?
O abraço que te dou não é suficiente. Tento agarrar-te ferozmente. Encubro-te. Camuflo-te. Tenho-te seguro. Estou a proteger-te. Agradeço a parte dos teus mecanismos mentais que me têm ajudado nesta tarefa. Eles ampliam o meu alcance. Estou aqui. Quero continuar aqui. Precisas de mim. Deixas de pensar em sobrevivência quando sentes que estou a vigiar-te e a tocar-te. Procuras desesperadamente falar comigo. Queres-me como teu vínculo permanente.
Mas és escorregadio. Deslizarás pelas minhas mãos caso haja um abalo considerável. Voltarás a cair naquele buraco escuro, largo e profundo onde mora o desconsolo humano. Voltarás a estatelar-te. Quero evitar isso a todo o custo. A nova queda poderá ser fatal. Grito-te. Imploro-te que não me abandones. Aprisiono-te, mas as correntes são quebradiças. Tento desviar a tua atenção dos estímulos externos agressivos.
Que rudimentar é a minha intervenção... Apenas posso contar com a tua força interior e isso faz-me sentir impotente...
Envergonho-me da minha intermitência. Sinto culpa de cada vez que te vês forçado a seguir os trilhos que não queres pisar. Ponho em causa a minha dignidade quando me apercebo que os teus medos se tornam reais, um a um, e te consomem lenta e dolorosamente...
Há tantos como tu... Não fazes ideia de quantos são ou quão próximos de ti estão... Tantos os que gritam pela minha presença mas eu não os consigo resgatar...
Sinto-me ofuscada pela escuridão do terror que te quer envolver. É difícil travar os intermináveis combates. Somos forças antagónicas de igual envergadura. Continuo a lutar pelo reconhecimento global do meu nome. Este nome inalcançável para muitos...
Eu. Dificilmente eu: resiliência.

sábado, outubro 14, 2006

[79 / Weak Connections]

Cada vez mais ponho em evidência mental os conceitos de “equifinalidade” e “multifinalidade”. Sim... Bertalanffy criou uma daquelas teorias que eu pensava que eram apenas para decorar, mas que acabou por se tornar involuntariamente numa ferramenta útil para a minha habitual avaliação do quotidiano: um pequeno mas importante desporto a que recorro. Uma actividade que pode ser muito perigosa e auto-destrutiva por vezes. Desconheço ainda as regras pela qual ela se rege.
Houve uma altura na minha vida em que comecei a pensar que talvez houvesse certos momentos em que as pessoas exagerassem aquilo que realmente sentiam. O motivo para o fazerem? Não o sabia. Ainda hoje não o sei. Cada qual terá as suas razões secretas para o fazer.
O que despoletou em mim esse pensamento foi um intercâmbio que tive com uma turma de uma escola secundária nacional. Na primeira fase dele, a minha turma foi morar durante três ou quatro dias nas casas dos alunos da outra turma. Repito: três ou quatro dias, numa cidade diferente e relativamente distante, em que as únicas caras familiares são as que se vêem sempre que as actividades lectivas englobavam as duas turmas. Após esse tempo, cada um de nós estaria a cargo do aluno responsável por nos alojar.
Para mim esses dias foram extremamente desgastantes e deprimentes. Ansiava pelo regresso a casa, onde me esperava o conforto da rotina que gostava de ter na altura. O mesmo não se passou com outras pessoas da turma. Ao fim desses três ou quatro dias, alguns deles tiveram a necessidade de mostrar ao mundo as lágrimas que a despedida lhes trazia.
Acredito que talvez num ou noutro caso as lágrimas se tenham devido a paixões fracas que a distância se encarregaria de dissolver mais tarde. Repito: num ou noutro caso. Não na maioria dos casos. Então porquê de tudo isto? Porquê fingir uma ligação forte inexistente? Não havia ali alívio por se voltar a casa? Todos nós sabíamos que não nasceriam grandes frutos daquela experiência.
Que razões pessoais levaram àquela equifinalidade: vários motivos levaram ao mesmo resultado de choro e tristeza superficial.
Porque está disseminado este fenómeno? Não me refiro a casos de intercâmbio, mas sim à superficialidade de certos comportamentos. Por que razão o repetimos em variados contextos?

segunda-feira, outubro 09, 2006

[78 / Statistics]

Durante um banho, ao som de música que pode ser considerada pesada (não vejo nada de pesado em letras negras e realistas):

- percentagem de pensamentos positivos: 5%.
- percentagem de pensamentos negativos: 95%.

sexta-feira, outubro 06, 2006

[77 / The Grip]

Naquela manhã que nunca mais será alcançada por qualquer um de nós, ele acabava de chegar à cidade.
Não ligou a quem estava à sua volta. Não quis saber que trajectos percorriam os outros, nem se interessou pelos motivos que os levavam também a pisar as pedras daquela praça de grandes dimensões.
À medida que ia caminhando com uma expressão neutra (talvez contemplativa, abdicando das expectativas que raramente se afiguravam realistas pela positiva), o seu olhar fixou-se num relógio gravado na parede de uma das várias fachadas altas. Era um daqueles que obrigam o cérebro a identificar a posição dos ponteiros e traduzir a especificidade do seu ângulo em números. É uma tradução que faz com os seres humanos se sintam mais confortáveis, dado que assim pensam conseguir controlar melhor a sua rotina. Mas a rotina de um ser biológico vivo é efémera. Todos nós chegaremos a essa conclusão mais cedo ou mais tarde.
Ele fez a tradução. Memorizou a informação que decifrou. Olhou para o seu relógio analógico. A hora deveria condizer. Não lhe interessava. Preferia os pensamentos que o absorviam interiormente. Começava a desprender-se da negatividade que a conscienciosidade pode trazer por vezes.
Subitamente decidiu ceder ao pensamento que lhe dizia para continuar.

Oh, que discrepância rapaz… As pessoas que tenham olhado para ti devem ter avistado o sorriso esboçado nessa face. Mas será que viram a vivacidade daquele olhar que indica que naquele preciso momento carregavas em ti a maior convicção que o mundo alguma vez vira?

domingo, setembro 03, 2006

[75 / A Lição]

Hi Alanis. I know this is my second entry, but I really want you to take a look at this picture.
I found it a few years ago in my Psychology book and I fell in love with it.The picture was taken by an artist called Ana Esquível. The title of the picture is "A Lição" (The Lesson).
I think this picture portrays in an excellent way the whole process of socialization or the introduction to this unchosen heritage: culture.
The girl seems to be such a rebel and fresh human being. The old man is the one who possesses the popular wisdom and he is teaching a part of it to the girl. Therefore, the girl's rebelness is being silently tamed. A slow and effective brainwash that will have positive and negative consequences: the girl will be given the chance to fit in her culture, but at the same time her thoughts will also be "contaminated" by ethnocentrism.

João Gil Martins
Portugal

domingo, agosto 27, 2006

[74 / Yin / Yang]


This is one of my favourite photos. I'm addicted to experimental photography, so I always try to take some "borderline" pictures and post the selected ones on my personal fotolog. It somehow represents my openness to diversity and creativity, and I expect others to be open-minded as well.
I remember being really impressed when I just saw the preview of this picture I had just taken on my digital camera (it was taken that way; no software was used).
There's not really a rational reason for me to like it. The image speaks for itself. I like the visual content of it. I gave it the title [Yin / Yang].

João Gil Martins
Portugal

sexta-feira, agosto 25, 2006

[73 / About The Growth That Resilience Brings]

É gratificante olhar para trás e ver o túnel que nos fez crescer. Mas atravessá-lo custa tanto...

quinta-feira, agosto 10, 2006

[72 / To An Unknown Lover]

Numa noite em que o vento teime em permanecer ausente, e o calor se lembre de me agasalhar, irei a uma praia.
A escuridão não constitui problema porque a lua cheia serve-me de lanterna natural.
Avanço pelo areal, com passos lentos mas decididos, saboreando a beleza natural daquele momento mágico que a atmosfera me proporciona. Sento-me. Fico atraído pela conjugação estonteante do calor nocturno, ar estático com fluidez invisível, ausência de sons incómodos, imobilidade da massa líquida a que as pessoas chamam de “oceano” (nem uma única onda, naquilo a que eu poderia denominar de “lago oceânico”). A água, sim, a água; esse manto negro (sempre foste um camaleão fiel ao céu cuja cor reflectes) que silenciosamente abriga seres vivos cuja visão do mundo em nada se assemelha à dos que vivem acima da superfície. Não iria certamente reparar em nenhum deles numa noite tão mágica como esta. A minha atenção seria exclusivamente focal; era tempo de abdicar da atenção difusa que iria perturbar este momento único. Todas as distracções seriam postas de parte.
Neste exercício de concentração retomo a essência de quem sou e esqueço todas as bárbaras provas a que fui submetido ao longo da vida, cujo objectivo (explícito ou implícito) se traduz em derrubar a crença e o gosto na maturidade intra e interpessoal. Sinto-me preparado para a purificação.
Levanto-me e continuo a seguir o caminho que tinha sido interrompido para poder apreciar dignamente a Natureza que compõe aquela praia. Fortaleço-me a cada passo, mas o processo não está ainda completo. Paro no momento oportuno. Prestes a atravessar a fronteira. Um pequeno passo. Transponho-a. Não sinto nenhuma diferença de temperatura quando a minha pele humedece. Nesse preciso momento começo a ouvir uma música sublime. Quem a conhecesse diria “Where It Belongs – Nine Inch Nails”.
Não contenho a força da emoção. Uma lágrima deverá cair nesse preciso momento. A verticalidade da gravidade delimita o seu breve percurso, fazendo com que se misture com a água salgada que os meus sapatos pisam. É uma lágrima que agora pertence à vastidão líquida que tanto nos dá vida como também nos afoga. Fico feliz por dar o meu contributo orgânico à Natureza. Uma parte de mim subsiste agora na deriva tranquila da água que percorre os cantos do mundo.
É a hora. Avanço novamente. Embrenho-me lentamente na água. A roupa que visto começa a adquirir uma tonalidade mais escura à medida que é molhada. Afasta-se do meu corpo. Volta a acariciar-me. Gosto da vida que parece ter.
Abdico das desilusões a cada centímetro submerso do meu corpo. Lavo-me da banalidade. Decapito as memórias de maltrato, quer por via da negligência quer por via do abuso psicológico. Derrubo as vulnerabilidades que me fizeram refém após uma infância deliciosa. Apago as frustrações de não alcançar aquilo que eu poderia ter sido.
Tudo é absorvido e aniquilado com mestria pelo oceano. Vou dando voz à pessoa que sempre quis expor.
Pouco falta até ter a ponta do meu último cabelo seco rodeada de H2O. Em dois segundos ela afunda-se juntamente com o resto do corpo que ele incorpora. A música passa a ser ouvida esbatidamente. Sinto o abraço que simbolicamente dou a mim mesmo. Tenho uma experiência de ponto máximo que apenas é testemunhada pelos organismos subaquáticos que por acaso lá se encontram. A purificação surge.
Os pulmões pedem-me que lhes devolva o oxigénio. Encontro-me em estado de transição; este momento libertador não pode durar muito tempo. Forçosamente dou ímpeto ao impulso de estender as pernas e voltar a posicionar a boca à superfície. Sinto-me grato pela inspiração. Coloco a face acima do nível da água. Volto a ouvir a música em perfeitas condições.
Regresso purificadamente ao areal e ao mundo oxigenado de onde pertenço.
Vejo-te à minha espera. Sento-me ao teu lado após me ter embrulhado na toalha que me ofereces. Ficamos os dois parados a contemplar a beleza daquele momento que não queremos desperdiçar. Observamos a passagem fugaz de várias estrelas cadentes. O tempo passa indeterminadamente enquanto pensamos na presença constante um do outro. Deixo de apresentar vestígios de humidade. Encostamos as nossas testas e inspiramos ao mesmo tempo que sorrimos de olhos fechados. A música cessa. Os nossos ouvidos captam o som ténue da nossa respiração sincronizada. Sozinhos naquele mundo que é só nosso. Juntos numa cumplicidade que o mundo alguma vez vira.
Segredas-me ao ouvido as palavras mais belas que alguma vez ouvi. Levantamo-nos e contemplamos os nossos olhares. Sinto o toque quente dos teus dedos e unimos as mãos. Os meus polegares afagam as costas das tuas mãos. A música regressa.
Ficamos com o olhar estático, lendo a pureza interior que ambos recebemos. Inspiro a tua expiração próxima. Expiro o ar que é inspirado por ti. A distância física reduz-se. As faces tocam-se ao nível dos lábios. A distância parece continuar a ser esmagadora, pelo que nos aproximamos ainda mais. O beijo é intenso. O abraço permanente que tinha dado a mim mesmo anteriormente torna-se ainda mais forte quando sinto o teu. Sentes exactamente o mesmo quanto ao meu gesto recíproco.
Mantém-se o beijo avassalador debaixo da cumplicidade do luar e do crepitar silencioso das estrelas incandescentes. Separamos as bocas enquanto mantemos o olhar fixo em nós.
Ambos ouvimos um pequeno baque previsível. Sabemos o que está a acontecer.
O pensamento começa a divulgar a uma velocidade estonteante todas as memórias adquiridas ao longo de uma vida. Percebo que o mesmo se passa contigo. É o momento de nos despedirmos daquilo que fomos. Começam a escassear as identidades de todos aqueles que interagiram connosco previamente. São demolidas todas as pontes que nos levem a pensar em terceiros. Não há qualquer tipo de apreensão pela aquisição desta amnésia selectiva. A redenção espera-nos. Os nossos olhares cruzados mantêm-se tranquilos. Somos só tu e eu.
As luzes da civilização começam a afastar-se apesar de permanecermos imóveis. A felicidade invade-nos. Estamos a alcançar a grandeza que desejávamos. Temos uma área grande de solo que nos quer acompanhar.
Quanto tempo levaria até a novidade ser descoberta por um transeunte? Quanto tempo iriam durar as buscas infrutíferas de nós? Isso não é relevante neste momento.
Voltamos a abraçar-nos, orgulhosos por podermos ter todo o tempo que quisermos para exercitarmos a nossa intimidade.
É esta a beleza da derradeira noite em que da costa portuguesa se desprende um pedaço considerável de terreno; ilha à deriva legitimamente usufruída por dois seres humanos que subsistem com a sua presença mútua. A noite em que um novo país secreto se forma, habitado por duas pessoas apaixonadas.

Falta-me a dura parte: ser encontrado. Por onde vagueias?

sexta-feira, agosto 04, 2006

[71 / Unselected Text!]

O meu texto não integra a miríade seleccionada pela Alanis Morissette.
Todos os meses ela escolhe um tema e pede às pessoas para que lhe escrevam acerca desse tema. Como é hábito, a beleza do seu interior faz com que ela aborde perspicazmente assuntos que façam com que as pessoas falem de coisas bastante pessoais.
Senti-me impelido a ir de encontro ao apelo de Julho, cujo tema é "What was one of your biggest turning points in your life - and did you have a revelation from it?".
Algumas das histórias que ela recebeu foram publicadas aqui, na secção Thank U do site dela.

P.S. - O desafio de Agosto pede para enviarmos a nossa foto preferida e explicar o porquê da nossa escolha. ;)

terça-feira, agosto 01, 2006

[70 / Dear John]

Poucas horas faltam para abandonares definitivamente a idade de ouro.
Vais passá-las estupidamente a dormir. Bem sei que já não há privilégios relevantes adquiridos quando se alcança/ultrapassa o vigésimo segundo ano de vida, mas é algo a que terás de te habituar.
Uma vez mais vais querer acordar momentos antes das oito da manhã para te veres ao espelho e imaginares a sala do hospital onde há anos atrás foste confrontado pela primeira vez com a luz solar. Sala essa que os teus pais já não sabem identificar; apenas sabem indicar o corredor. Talvez nunca chegarás a saber ao certo que paredes testemunharam o teu nascimento.
É interessante fazeres a retrospectiva de uma jovem vida durante breves minutos. Analisares o percurso com trilhos ambiguamente decadentes e sublimes que foste forçado a percorrer. Veres o reflexo do teu aspecto físico e conversares mentalmente com a pessoa que os teus olhos observam. Chamares a criança feliz que houve em ti e confrontá-la com o resultado final de uma viagem ao mundo subterrâneo da condição humana. Ambos estranhamente donos do mesmo corpo… Mas irreconhecíveis interiormente.
É tarde para te salvar do teu passado. Será tarde para o meu eu futuro me salvar do meu futuro próximo. As máquinas do tempo ainda não estão disponíveis, nem acredito que algum dia estarão, senão já teríamos sido abordados pelos nossos descendentes. Gostava de te ter podido ajudar quando precisaste, João. Tenho a certeza que o meu eu futuro dirá o mesmo quanto à avalanche de acontecimentos que eu ainda não sei que irão ocorrer.
Não gostei de ver o teu estado nestes últimos dias; parecias disposto a abandonares-te. Não voltes a descer essa gruta. Ainda te vejo a colmatar as fendas do terramoto que te assolou recentemente.
Tenta cimentar as tuas crenças com as ferramentas que possuis. Só assim conseguirás manter a sanidade mental.
Espero ver-te com mais confiança daqui a um ano. Gostava de te assegurar de que poderás estar tranquilo acerca do teu mundo externo, mas isso é-me impossível de controlar.
Desejo-te os mais felizes dos acasos.
Despeço-me aqui, João.
Um abraço.

terça-feira, julho 25, 2006

[69 / Texto Seleccionado?]

Probably the biggest turning point in my life happened when I played a game (Wip3out). I felt I was being given the privilege of getting a glimpse of what our future should be like. Although the game doesn’t really have a plot (in fact it is a mere racing game), I got mesmerized with the concept of it: the futuristic design, the quality sound of it, the amazing atmosphere that the screenshots portray and, especially, the hope in technology as a big help for human beings. It really made me get an astonishing insight. Suddenly, all I wanted was to become a person who would perfectly fit into that advanced world. Probably it was a bit illusive, but I started selecting all my new clothes in order to wear futuristic stuff. It was definitely an hard task…
I had a revelation from it because beyond the fascination with the game, I started analyzing the world in a different way: people seemed to be happy by just following everyone else’s steps. It became clear to me that almost no one dares to achieve success in the creativity field.
I was getting filled with innovative ideas in several areas; one of them is music. I started composing electronic songs (as well as the corresponding videos) in my mind and I really wanted to get an idea of how to bring those songs into reality… Those were songs which wouldn’t fit any genre I’ve ever heard before.
I wanted to spread my insight, so maybe I could trigger independent creativity on someone else’s mind. I felt the urge of being seen as someone who was no longer belonging to the grey crowd.
As our face is our own “busyness card”, I found it to be the perfect place to show what’s on my mind, so I started drawing futuristic design on my face.
A few weeks later I realized that my transparency wasn’t really welcome in my social background (or should I say that I tasted the corrosive flavour of social coercion?). I went back to my cocoon and stayed there for months.
Today I’m a grey guy in the crowd, who still loves to experience freedom in the form of innovative thoughts; the mind became my favourite playground.
Currently I’m studying Psychology at the university and I like to take experimental pictures.
But one thing is certain: if one day I get the chance to be taught all the tricks of how to create quality electronic music, I’ll follow that dream.
After all I’ve learnt that people only get the legitimacy of being a bit eccentric/visionary when they become famous…

João Gil Martins
Portugal

segunda-feira, julho 24, 2006

[68 / Screwing A Group Up]

Para o observador externo, um grupo parecer-lhe-á sempre mais coeso do que ele é na realidade. A partir do momento em que se tornasse um membro atento, iria notar rapidamente que a sua constatação estaria errada.
Iria deparar-se com as resistências pessoais que cada membro tem para com as tomadas de decisão grupais. Iria constatar que há reservas nas palavras que um elemento diz a outro, de modo a camuflar a globalidade da sua opinião acerca deste.
De fora, à distância da imperceptibilidade do conteúdo das palavras proferidas por cada membro, e por muito bem que o observador saiba ler os lábios mudos de alguém, a engrenagem parece estar a funcionar na perfeição, mas os actores sociais que integram a dinâmica grupal, são dotados de individualidade (para o bem e para o mal), estando mais aptos para assinalarem/assinarem as falhas existentes. Só cada um deles sabe como realmente percepciona determinados momentos vividos em comum. E é aí que podem surgir (e mais tarde intensificarem-se/auto-cumprirem-se) as distorções interpretativas.
Mas o que considero desastroso num grupo não é tanto isso. Só tem distorções interpretativas quem não possui tacto, e isso só depende de cada um.
O veneno num grupo envolve os conceitos científicos de ingroup e outgroup (mal sabiam os criadores desses conceitos, que um dia, um estudante de licenciatura, iria usar esses dois conceitos para explicar o fosso em que qualquer grupo se arrisca a cair).

Ingroup _ sentimento de pertença ao grupo
Outgroup _ os outros grupos que não o(s) do indivíduo

Ávidos de conseguirem melhorar a produtividade nas organizações, os responsáveis pela ascensão destes conceitos, referiram-se a eles tendo por base o grupo no seu todo. Mas e se os usarmos a um nível micro? Não conseguem explicar tão bem os problemas que se instalam numa interacção intra-grupal? Sou apologista do “sim!”.
Por exemplo, num determinado grupo em que as saídas são irregulares quanto à assiduidade dos seus membros, haverá certamente momentos em que todos os elementos se encontrem, mas devido à incompatibilidade de horários/vontades, haverá outros tantos momentos nos quais apenas metade (ou menos que isso) dos indivíduos se encontrem. São estes últimos que potenciam a possibilidade de se tentarem criar micro ingroups : os membros que estão em interacção (seja numa díade ou numa tríade) podem tentar valorizar a sua cumplicidade, recorrendo à análise crítica negativa face aos atributos de outros elementos ausentes. Deste modo, favorece-se um novo ingroup de dimensões mais reduzidas, fazendo com que os outros elementos do grupo sejam vistos como outgroup. A partir desse momento, é difícil travar a avalanche crítica. Mas é um esforço a que todos os membros se devem submeter caso queiram evitar a tensão no grupo.

terça-feira, julho 11, 2006

[67 / Massive Attack]

Há poucas horas estava eu no Coliseu do Porto a ver os Massive Attack.
Se houver próxima vez, espero estar na primeira fila (tal como aconteceu há três anos).

Momento alto do concerto de 2003: Teardrop.
Momentos altos do concerto de 2006: Angel + ver o Daddy G passar inesperadamente ao meu lado enquanto estava na fila para adquirir os bilhetes.

[66 / Eyes Shut (or) The Fit Pieces Of A Puzzle]

É estranho apercebermo-nos que algumas pessoas conseguem construir uma visão distorcida acerca dos outros e depois agem em função da ilusão que teimam em ver. (Sim, é verdade que não sou manifestamente
É uma falsa clarividência que conduz a diversos erros e pode trazer variadas consequências... _humilde. Nem serei, porque nunca vi ninguém
Realmente, o que vemos ao espelho não é exactamente o mesmo que os outros vêem em nós. ____sentado na mesma pedra onde eu estive e
E as coisas complicam-se profundamente quando se faz a mesma comparação, mas a nível de personalidade. ___poderei estar novamente.
Aí os tiros no escuro raramente acertam no alvo. _____Para quando está
Há que intervir-se neste tipo de processos antes que seja tarde demais.
E certos pensamentos não devem nunca ser transmitidos para o exterior. agendada a construção de uma ponte segura para esta ilha que
Cresce a olhos vistos esta cumplicidade para comigo mesmo.eu sou? Será
O interno é realmente uma dádiva. _____ uma ponte que une duas ilhas
Torna-se o meu recreio favorito. _________ mutuamente interessadas?)

segunda-feira, julho 03, 2006

[65 / Locked Folder]

Por vezes gostava de ter acesso a uma hipotética lista que incluísse bastante informação acerca de todas as pessoas que já se sentiram atraídas por mim.
Provavelmente iria ficar surpreendido com o seu reduzido número de páginas. Ou talvez por outro lado ficasse impressionado com alguns dos nomes que nela constassem...

Why is it so hard to read everybody's emotional intentions?

sexta-feira, junho 30, 2006

[64 / Looking To The Outside]

Dois textos de leitura crucial, acerca das "almas gémeas": este e este.
Gostei particularmente do apelo implícito que faz a cada um de nós: termos a noção de que numa relação somos respeitados (mesmo pelos nossos defeitos), logo não se devem exigir características impossíveis à outra pessoa.

quinta-feira, junho 29, 2006

[63 / Reincarnation]

Depois de um bom filme fico sempre com aquela sensação estranha de que sou forçado a voltar a viver a minha vida. Uma vida que não tem nada de fascinante quando comparada ao magnetismo daquelas que observei. É sempre a pior parte de qualquer bom filme.
Sentir-me tocado pela história que decorre em frente aos meus olhos e esquecer por minutos a pessoa que sou, o local onde me encontro, as fraquezas e qualidades que possuo, ...
O impacto do regresso a mim é fortíssimo.

segunda-feira, junho 19, 2006

[60 / “I’m So Sorry”]

Dia 1
O dia parecia ter chegado ao fim, mas ele não sabia o que o esperava nos minutos finais.
Desconhecia que naquela noite ele iria experienciar o verdadeiro poder de um chat.
Assim foi. No decorrer da conversa, não só sentiu atracção física pela imagem que recebeu, como também se sentiu intrigado por saber que ambos estudavam no mesmo estabelecimento de ensino. Apesar de tudo, a verdade é que esse estabelecimento comportava milhares de estudantes, sendo natural que nem ele nem ela se reconheceram.
Começaram a encontrar pequenas diferenças; acharam piada a outras semelhanças; quiseram continuar a conversa no dia seguinte.

Dia 2
A meio da conversa que lhes estava a permitir conhecer mais pormenores sobre cada um deles, ela irrompe com a frase “ontem estive a pensar e acho que te tenho de contar a verdade, senão depois arrependo-me”.
Ele ficou curioso e perguntou-lhe o que é que ela lhe tinha para contar. A desilusão veio no formato de uma simples frase. Todas as fotos que ele tinha visto até àquele momento, não eram dela. A partir daquele momento deixou de fazer sentido para ele continuar a fazer o esforço de ignorar as diferenças entre eles e focar-se apenas nas semelhanças. Era como se todas as pequenas contariedades de que ele se tinha apercebido até ali, de repente se tornassem demasiado extensas e impossíveis de remendar. Seria um esforço em vão. Não sentia a mínima atracção pela pessoa exposta na nova foto.
Apesar do desenrolar da conversa, ele nunca chegou a perceber realmente o porquê de ela ter usado fotos de uma amiga que vive no estrangeiro.

sexta-feira, junho 16, 2006

[59 / Redefinitions Of A Little Part Of Our Reality]

Trauma:
estar-se no local errado à hora errada.

Profissional:
alguém cuja média de aprovação se situa acima dos 9,5 e abaixo dos 20 valores.
(Assim se conclui que não há nenhum profissional que tenha o mérito de saber todos os pormenores relativos à sua profissão; houve sempre algo de incompleto no seu conhecimento, por muito bom profissional que o indivíduo seja.)

Desespero:
emoção corrosiva provocada pela confrontação com adversidades colossais.

Relaxamento:
arte a que as sociedades modernas se têm vindo a desabituar.

Resiliência:
algo a que darei sempre as boas-vindas e que espero que nunca me venha a abandonar.

quarta-feira, junho 07, 2006

[58 / Untouchable Design]

Antes de entrarmos não sabemos com que tipo de arte nos vamos confrontar. Pode ser desde a pintura abstracta e impossível de descodificar, até à arquitectura de um molde humano que se encaixa perfeitamente na nossa silhueta.
Os títulos alusivos à exposição são sempre vagos. É preciso pagar bilhete e arriscar presenciar o espectáculo sonoro e visual. Passar as portas da selectividade subjectiva. Deixar passar o tempo.

Desta vez, para além da boa música, também houve exposição clandestina de autênticas peças de design. Divinamente dotadas de um sistema nervoso que lhes confere distintividade e autonomia.
Mas as peças são raras e caras. Não são produzidas em série. Nem estão ao alcance de qualquer um. Intocáveis. Apenas observáveis a uma distância razoável. O deleite é visual.
Gostei de ser espectador, mas talvez no dia em que contratar o álcool para ser o meu gestor de recursos emocionais e comportamentais, sairei da exposição com a certeza de que adquiri uma dessas peças minimalistas, cujo conteúdo não me desiludirá.

sábado, junho 03, 2006

[57 / A Twist In The Particular Final Moment]

Há dias em que pensamos que nada de relevante irá acontecer nos seus minutos finais, a tal ponto que sabemos já que título escolheríamos para resumir o que aconteceu durante o intervalo de tempo em que permanecemos acordados.
Só que esses minutos finais ainda não terminaram. É por isso que nos sentimos completamente desprevenidos para com notícias inesperadas de última hora (ou será de "último minuto do dia"?) que mudarão irreversivelmente as nossas atitudes no futuro...

"This time I'm gonna keep me all to myself" (Björk _ "Pagan Poetry")

quarta-feira, maio 24, 2006

[56 / Cat’s Negativity]

Mas nem tudo foi brilhante. Pelo menos isso foi explícito nos minutos finais do Enterro.
Já tinha nascido o sol. Saí acompanhado de uma amiga de curso, só que houve uma altura em que ela teve de atravessar uma estrada para seguir em direcção ao prédio dela, e eu mantive-me no passeio onde caminhava. À medida que ia reduzindo a distância que me separava de casa, vi que à minha frente seguiam várias pessoas: três rapazes a poucos passos à minha frente e outras pessoas bastante mais avançadas no caminho.
Como estava a andar a um passo mais acelerado que os três rapazes, é natural que os tenha ultrapassado naquela rua com árvores que separa a Universidade do Minho do recinto do Enterro.
Segundos depois constatei que um desses rapazes estava já a caminhar à minha frente. Foi nesse momento que senti um abraço. O meu primeiro pensamento era de que estava a ser abraçado por alguém que me conhece, mas à medida que inclinei a cabeça para olhar para trás, ouvi uma voz masculina irreconhecível. As palavras proferidas pela voz foram “passa”, “para”, “cá”, “a” e “carteira”.
Tornou-se claro. Estava a ser roubado pelo grupo que há segundos atrás tinha ultrapassado.
O abraço nunca o foi. Traduziu-se numa técnica que reduzia a minha mobilidade. Enquanto me debatia, o terceiro elemento retirou-me agilmente a carteira do bolso. Notava-se que havia hábito naqueles gestos. Ainda não tinha começado a dizer que tinha gasto todo o meu dinheiro nas barracas do recinto e já a minha carteira estava aberta, com dois dedos a vasculhar por entre os papéis que lá estavam depositados.
Eles perguntaram pelo dinheiro. E eu continuava a responder que queria a MINHA carteira e que gastei o dinheiro todo nas barracas. Agitava-me de modo a tentar chegar perto dela, mas não conseguia tocar-lhe.
Houve um truque (não intencional) que jogou a meu favor. Não o vou revelar porque não faço ideia de quem algum dia poderá ler estas linhas.
O rapaz que segurava na carteira e procurava pelo dinheiro desistiu de o fazer e devolveu-ma. O rapaz que inicialmente vi a ultrapassar-me nunca me tocou. O rapaz que me tinha agarrado estava agora a dizer-me “Então quero o telemóvel.”.
Levei a mão ao bolso e fiz força para não deixar entrar a mão intrusa.
O revisor da carteira limitou-se a dizer “Deixa-o ir.”. Apesar desta frase mágica, o terceiro elemento não obedeceu e continuava a forçar o meu bolso. Ele estava a ficar para trás porque os outros dois já seguiam caminho à minha frente. Desistiu, não sem antes me tocar com o punho semi-fechado pelo queixo e dizer “Põe-te fino.”.
Passei instantaneamente para o outro lado da estrada e senti-me ridículo por caminhar paralelamente a eles naquela estrada. Dei meia volta e decidi tomar o percurso existente dentro das fronteiras da universidade.
Quando tive oportunidade, olhei para a estrada para tentar memorizar aquelas três caras, só que nunca mais as vi…


E agora pergunto-me: com que legitimidade alguém comete um acto destes? Que frieza tiveram de adquirir para fazer disto um estilo de vida? Não têm noção do impacto que poderiam ter provocado caso eu tivesse maior vulnerabilidade? O que teria acontecido se tivessem escolhido alguém altamente vulnerável? A partir de que momento se deu a viragem entre a fase em que viam os ladrões como pessoas más (certamente já possuíram um dia esta opinião de quem rouba, nem que seja nos tempos de infância em que viam desenhos animados) e o momento em que se dedicaram ao primeiro roubo? O que os leva a ingressar numa actividade tão desprovida de honra e prestígio?
Uma tremenda falta de respeito pelas histórias de vida/sonhos/objectivos/fraquezas/ilusões de quem abordam…

terça-feira, maio 23, 2006

[55 / Cat’s Positivity]

A curva de esquecimento é mesmo inevitável…
Após cada longa noite de Enterro da Gata, acordava e ficava a pensar em todos os pequenos episódios que vivenciei no interior do recinto. Cada um desses episódios fazia com que eu ficasse a sorrir como um parvinho. Eram tantos os sorrisos!...
Hoje tenho a sensação de que notoriamente grande parte desses sorrisos já não existe porque a minha capacidade de evocação acerca dessas fantásticas noites já está numa fase de deterioração. É claro que para este fenómeno de esquecimento, também deve ter contribuído o episódio negativo final (que certamente deve ter ofuscado a evocação de vários episódios positivos, mas isso é outra história que só será englobada no próximo post).
Ainda há fragmentos divertidos memorizados.

fazerem inúmeras propostas de pagamento de bebidas a preços absurdamente baratos
eu próprio tentar pedir shots grátis numa outra barraca, dizendo à rapariga que estava por trás do balcão que eu gostava da maneira como ela se vestia
ter duas irmãs gémeas a suplicarem por dois shots a vinte e cinco cêntimos cada, acabando por serem brindadas com dois shots que incluíam vodka e (muita) cola, para além da cómica troca de frases: “Vocês nunca na vida serão psicólogas!” / “Pois não. Vamos ser economistas!”
uma finalista com uma camisola de curso a dizer “Psicologia Clínica” vem ter comigo à barraca e pede um dos já tradicionais shots a preço de água. Nunca a tinha visto na vida. Disse-lhe que o preço tinha de ser o que estava exposto na tabela. Ela rematou: “Mas eu tirei Psicologia Clínica!!! Não é como vocês, que cá só tiram Psicologia geral! A minha licenciatura é em Psicologia Clínica!! Tu devias ter inveja da minha licenciatura!”. A minha resposta: “Ai é? E onde é que tiraste a licenciatura?”. Ela disse: “Na Gandra!”. Naquele momento, se eu tivesse uma folha a dizer “LOLOLOLOL!”, tinha-a colado certamente na minha testa. Ou talvez mesmo uma das gotas que tenho no meu estojo, feitas em cartolina, para imitar de vez em quando as personagens dos desenhos animados japoneses quando alguém diz uma enorme bacorada. Mas naquela barraca as únicas gotas que eventualmente surgiam eram as que se entornavam dos copos e garrafas com álcool. Limitei-me a explicar-lhe que a Universidade do Minho oferece a melhor licenciatura em Psicologia no país
a minha primeira experiência de tirar um fino foi completamente ridícula. Limitei-me a despejar a cerveja no copo, esquecendo-me de rodar o copo. O resultado é previsível: um copo com muita espuma e pouca cerveja
a primeira vez que me pediram uma bebida menos habitual também foi igualmente inédita. Pediram-me um gin tónico. Peguei num copo, pus gelo e enchi o copo só com gin. O “cliente” aprovou a bebida com satisfação: “Olha. Isto está espectacular!! Só falta uma coisa… Agora põe só um bocadinho de água tónica.”(Acho que é para este tipo de experiências que servem os primeiros turnos de cada pessoa que trabalhou na barraca de Psicologia)
começar a ignorar pedidos de shots grátis, dançando para debaixo do balcão, constatando no entanto que quem queria as "promoções" não se importava de debruçar-se para conseguir continuar a persuadir-me
oferecer um “Psi” (Ψ) do tecto da barraca porque me pediram uma lembrança de Psicologia do Enterro 2006
...aplaudir o facto de a minha amiga Vera ser finalista em Sociologia. Foi um aplauso de parabéns completamente sincero. A recompensa que obtive foi um reconfortante abraço apertado e caloroso que representa a cumplicidade que temos tido desde o nosso tempo de "caloiritos". Para além do abraço, também foi notório que houve a presença de lágrimas femininas pelo facto de este ter sido o último Enterro da Gata da minha antiga geração de sociólogos... (Eu continuarei por cá, Vera... Pelo menos mais um ano.)
ouvir falar de vez em quando do meu profile do Hi5 e do meu blog (A Diana e a Marlene queriam que eu falasse delas aqui, por isso aqui têm o vosso tempo de antena… Hehehe!)
sentir que estava em frente a uma rapariga simpática que me fazia lembrar a Alanis Morissette e que acabou por beber Kalashnikovs sem limão com os amigos
não ter vontade de abandonar o meu turno na noite final quando me apercebi que apenas me restavam dez minutos de trabalho diversão dentro de uma barraca...
...poucos minutos após ter posto a tocar o cd que levei para a barraca com a intenção de ter o privilégio de conhecer as músicas que ouvia enquanto trabalhava, um rapaz apareceu por lá e disse-me: "Parabéns! Acabou de tocar aqui a melhor música de todas as barracas! Continua a pôr na música um desse cd!". Agradeci-lhe e disse que por acaso o cd era meu. Contudo nunca lhe disse que a música número um a que ele se referia, era de facto a música número dois daquele cd (naquela noite apeteceu-me começar com a segunda música)...

(Certamente há muitos mais episódios prestes a assolarem o meu pensamento, por isso nos próximos dias sou capaz de actualizar este post)

terça-feira, maio 16, 2006

[54 / Internal Battle]

O meu corpo tem sido um campo de batalha por parte de microrganismos.
Numa altura em que quase se avista o lado vencedor, fica a noção de que pelos menos três noites do Enterro da Gata já não voltam.
Vou viver a 200% os dias de festa que me restam.

terça-feira, maio 09, 2006

[53 / The Privilege Of Being Given The Chance To Experience A Rushed Heartbeat]

Habituamo-nos tanto à inexistência de relações interpessoais com estranhos que por muito que esse relacionamento seja desejado, simplesmente não encontramos meio de fazer com que ele surja.
No entanto, muitas das vivências que temos são partilhadas com algumas pessoas que por acaso nada nos transmitem. É um paradoxo. Sim. É. Somos forçados a falar com aqueles que pouco nos dizem e forçados a não estabelecer contacto com quem nos transmite uma imagem cativante, mas oficialmente distante. Não há nada que faça com que os nossos caminhos se cruzem e nos levem a ter uma troca de palavras espontânea.
É por isso que aceitamos com grande satisfação cada pequena oportunidade de ficarmos a conhecer mais pormenores sobre as pessoas que secretamente seleccionamos. É por isso que reconhecemos com maior rapidez aquelas faces. É por isso que nos sentimos mais agitados quando estamos em frente a essas faces. É por isso que pensamos nelas frequentemente. É por isso que não queremos acreditar que finalmente chegou o tão aguardado momento de sermos confrontados com a descoberta do profile de uma delas. É por isso que o coração bate descontroladamente quando nos apercebemos de que vamos ser brindados com a informação pessoal dessas pessoas. É por isso que não descansamos enquanto não devorarmos toda a informação que essas pessoas transmitem no profile. É por isso que temos a ânsia de ver/guardar todas as fotos adjacentes. É por isso que tentamos arranjar ideias para fazer com que essas pessoas também se apercebam de que nós próprios temos um profile pronto a ser lido.
É um abanão intenso.


Sentimos verdadeiramente o privilégio de nos conseguirmos "aproximar" daquelas pessoas especiais que infelizmente nos habituamos a ver de perto ao nível geográfico, mas de longe ao nível interactivo. De repente deixam de habitar o mundo dos nossos pensamentos para aparecerem sem aviso prévio no nosso ecrã.
Conseguimos, por momentos, sentir que deixaram de ser tão incógnitas. Aceder àquela imagem física que sempre quisemos ter à nossa frente a qualquer hora. Rever essas faces através de um ponto de vista incrivelmente próximo. Ouvir-lhes o fervilhar das ideias. Ver aquele olhar estático mas intenso a fixar o nosso. Tocar-lhes na pele a que agora temos acesso visual e intemporal. Sentir-lhes a respiração. Apreciar o beijo silencioso.
Tudo isto de uma forma virtual…

terça-feira, maio 02, 2006

[52 / By Request]

Devido à pertinenência de uma questão que me foi colocada num comment, aqui vai a resposta: não gosto da palavra discoteca porque me remete para um ambiente completamente retro (anos 80)...
Soa a uma palavra completamente contextualizada naquela época desactualizada...
Acho que quem opta por chamar outros nomes às discotecas, se sai sempre bem.
Club é um bom exemplo.

terça-feira, abril 25, 2006

[51 / Revealing The Uncountable Topographers]

Quando reparo num topógrafo nas ruas, vejo-me obrigado a procurar o outro topógrafo. É algo a que não consigo resistir. Às vezes bem tento olhar disfarçadamente para o local onde está direccionada a máquina do primeiro topógrafo, mas nem sempre consigo encontrar o segundo.

Estes episódios são fácil e especialmente transferíveis para as discotecas (I hate this word). Refiro-me a vários aspectos:
_ a facilidade com que nós próprios reparamos no interesse que temos por pessoas específicas; tornamo-nos topógrafos prontos a estabelecer contacto visual com outra pessoa;
_ a dificuldade com que a outra pessoa se apercebe que se está a tornar topógrafa: de repente nota que há alguém que olha bastantes vezes para ela, mas não consegue decifrar qual a intensidade/superficialidade do interesse da pessoa inicial;
_ a dificuldade com que conseguimos detectar outros topógrafos na discoteca.

O primeiro aspecto envolve exclusivamente a nossa atracção pessoal, pelo que não nos é nada difícil adivinhar quais seriam as nossas opções na selecção de colegas de trabalho topográfico.
O segundo, nos casos em que o alvo da selecção somos nós, pode envolver bastante coragem por parte da(s) outra(s) pessoa(s), dado que podemos aperceber-nos do interesse alheio através de métodos muito diversos. A divergência nestes métodos é da exclusiva responsabilidade da(s) outra(s) pessoa(s), dado que diferentes tipos de abordagem podem requerer níveis de coragem idênticos, consoante as pessoas. Assim, a “ousadia” de um ser humano fixar o olhar em alguém e deixar-se apanhar repetidamente nessa actividade, pode ser equivalente à ousadia de outro ser humano quando decide tentar estabelecer uma conversa, tendo como objectivo principal obter um nome ou um número de telefone. Por seu lado, alguém que arrisque um beijo, pode sentir o mesmo nível de insegurança/desconforto que a pessoa que está a tentar estabelecer o contacto visual inicial.
O último aspecto é, a meu ver, o mais interessante de todos. Ele ocorre quando nos alheamos desta nossa profissão forçada e tentamos detectar o trabalho exercido pelos outros. De vez em quando temos indícios de que amigos nossos estão interessados em alguém que está por perto, mas não conseguimos fazer ideia de quem seja, a não ser que nos digam quem é. Mas isso nem sempre acontece. E quando tentamos observar estes padrões em pessoas que não conhecemos? Torna-se tudo ainda mais complexo.
Não detectamos receios e incertezas realistas por parte dos topógrafos que estão em nosso redor. Não conseguimos encontrar os olhares cruzados, mas o facto é que eles devem estar a ocorrer durante as nossas distracções. Não avistamos a evolução dos comportamentos que a cada momento tendem a tornar-se mais notórios. Não nos apercebemos da desilusão que um gesto errado pode provocar no outro topógrafo.
Todo o trabalho parece ser feito na clandestinidade, até que de repente a interacção corporal (bem) explícita torna oficialmente visível o processo que tinha estado camuflado. Normalmente esta visibilidade só ocorre quando o comportamento é socialmente irreversível, tal como é o caso da conversa ou de um beijo.

E enquanto nos debruçamos sobre os interesses imperceptíveis das pessoas que estão ao nosso lado, não fazemos a mínima ideia do quão disseminado este fenómeno está, debaixo daquele tecto onde as pessoas dançam e se observam. Não imaginamos a quantidade e diversidade de topógrafos que nos rodeiam. Não sabemos quando é que estamos a impedir fisicamente a troca desses olhares (quer distraindo um dos topógrafos, quer colocando-nos acidentalmente entre eles os dois - é nestes momentos que nos tornamos lixo visual para os dois topógrafos que tentam a todo o custo arranjar um novo local estratégico). Nem sequer temos consciência de que se existisse um fio de conexão entre cada olhar que se cruza interessadamente, estaríamos certamente envolvidos num casulo gigante.

[50 / About The Difficult Task Of Transmitting An Intimate Insight]

Há claramente um desfasamento entre a grandeza dos insights que experiencio e aqueles que consigo veicular nas minhas frases.
Mesmo aqueles que são focados aqui, nem sempre são descritos da forma exacta como os vivencio...
Deste modo não é difícil comprovar que apesar da intimidade de alguns posts, continuarei a ser sempre aquele que melhor os conhece.

terça-feira, abril 18, 2006

[49 / Reciprocity]

É gratificante quando os gigantes dedicam algum do seu tempo a responder aos nossos elogios.

domingo, abril 16, 2006

[48 / The Very Few Deities Who Share Their Life With The Rest Of Us]

Teimo em cair no erro de glorificar caras indescritivelmente bonitas…
Há situações em que sinto pena dessas pessoas por não conseguirem rodear-se de pessoas igualmente belas. Devem olhar em volta e nada lhes deve dar interesse.
Vejo-as como autênticas ilhas isoladas e inacessíveis. Para mim é legítimo que nos desprezem.

Mas a verdade é que essas pessoas se adaptam a nós. Porque o fazem? Porque não se deixam tornar completamente independentes? Porque se adaptam às mesmas lógicas de pensamento que nós? Porque têm também de se confrontar com pessoas que não gostam delas? Como é possível que alguém não goste delas? Porque têm de viver misturadas connosco? Porque não têm a vida facilitada? Porque partilham connosco a capacidade de se tornarem reféns de críticas destrutivas? Porque respiram o mesmo ar que todos nós? Porque conseguem sentir emoções negativas? Porque comunicam connosco? Porque não são tratadas como seres superiores? Porque é que também sabem o que é a vertente prática de uma depressão? Porque procuram a felicidade em nós? Porque se deixam apaixonar por pessoas que não atingem o seu nível de beleza? Porque são forçadas a ter histórias de vida banais?
A vivência connosco parece não trazer qualquer benefício...

Só encontro uma explicação plausível: o interior não deve estar ao mesmo nível supremo que o exterior.
A verdade é que gostava de encontrar alguém que refutasse esta teoria. O meu mais puro fascínio surgiria a partir desse momento.

sábado, abril 15, 2006

[47 / Physical Attraction]

Finalmente consigo explicar o meu fascínio por olhos claros.
Descobri que o mérito não advém exclusivamente da tonalidade da íris, mas sim do facto de se conseguir observar a pupila a uma distância razoável.
É por isso que há certos tipos de olhos castanhos que também me cativam.

Falta ainda saber explicar a razão para o meu interesse recente em cotovelos...

quarta-feira, abril 05, 2006

[46 / No Barriers Imposed On Strangers]

Este semestre aprendi que a fala não é um processo automático (ao contrário do que ocorre com a leitura).
Contudo, ontem passei por uma experiência que quase abriu uma excepção a essa teoria.
Estava a caminho de casa quando de repente vejo uma cara conhecida da universidade. A cara de alguém com quem me cruzo bastantes vezes, tanto no campus, como nos bares para onde costumo ir de noite. Como se isso não bastasse, tenho também o hábito de incluir essa cara nos meus pensamentos, de tempos a tempos.

E ontem voltámo-nos a cruzar. Olhámo-nos e abri a boca. Não proferi a expressão "Olá!" porque me contive nos milésimos de segundo finais.
Não é que tivesse algum mal o facto de nos cumprimentarmos, mas seria completamente despropositado, até porque nunca nos falámos durante estes anos todos (apesar de ambos termos sido apanhados em flagrante quando de repente o Hi5 começou a enviar newsletters com as pessoas que visitam os profiles de cada um).
Aliás, até teria sido interessante ver o desenrolar da situação caso eu não me contivesse a tempo.

Pessoas que me passam pela cabeça várias vezes por semana...
É natural que quando as veja de repente, as confunda por breves instantes com as pessoas com quem lido e cumprimento habitualmente.
Silly brain !

quinta-feira, março 30, 2006

[45 / Throwing Pigs To Pearls]

A minha propensão para relaxar era enorme.
Peguei numa cadeira, pu-la na varanda e sentei-me a apanhar sol enquanto ouvia música.
Não levou muito tempo para que me abstraísse do local onde me encontrava para ir de encontro ao significado das palavras inglesas que ouvia melodicamente. Só o vento frio e intermitente parecia querer trazer-me de volta para a realidade.
Num desses regressos vi que uma mulher estava na varanda do seu apartamento, uns prédios mais à frente. Estava de pé, com a mão no corrimão da varanda e a olhar em frente. Quis saber que paisagem estaria ela a ver. Nada… Não havia nada de especial na paisagem para que ela ficasse a admirá-la durante muito tempo.
Foi então que dei por mim a fazer o processo inverso: olhar-me através da varanda dela. A minha paisagem era exactamente a mesma (a única diferença era o ponto de vista): um festival de tijolos, cimento, tábuas de madeira, areia, andaimes, ferro, uma grua, poças de água suja e outras coisas feias que estão destinadas a fazer parte integrante de um novo prédio bracarense cujos apartamentos serão vendidos a preço de ouro.
Perante um cenário destes é quase ilegítimo termos prazer em estar numa varanda para nos abstrairmos. Dei por mim a cair na realidade: quantos de nós têm de se limitar a viver em caixinhas feias e padronizadas, independentemente da pessoa que somos, dos ideais em que acreditamos, das aspirações e objectivos que temos?... É a isto que se chama viver numa cidade? Será este o sonho urbano?

quarta-feira, março 29, 2006

[44 / Simple Questions, Hard Answers]

Porqué é que é mais fácil aprender a desconfiar do que a confiar?

Porque é que é mais fácil criticar do que elogiar?

Porque é que é mais fácil o processo de distanciamento entre duas pessoas do que o de conhecimento mútuo inicial?

sábado, março 25, 2006

[43 / (Not) Together]

Algures neste planeta está a pessoa por quem sempre ansiei.

És capaz de me estar a procurar neste momento, mesmo sem me conheceres. Olhas em volta mas só vês fontes de desinteresse perpétuo (pelo menos para a especificidade subjectiva dos teus gostos).
Aprisionado pela distância geográfica, eu sinto-me impotente por não poder estar aí e conseguir estabelecer a minha influência periférica. A difusão mútua das nossas influências seria tão intensa que nunca se apagaria das nossas memórias e a sentiríamos sem precisarmos de cientistas para o comprovar.

Mas vamos morrer sem nunca nos vermos. Nunca terei a imagem precisa do teu rosto. Nem tu do meu.
No entanto temos a perfeita noção de que existimos. Somos a melhor fusão que a contemporaneidade nos conseguiu arranjar.

Penso em ti a conformares-te lenta e sequencialmente às três leis que se abatem sobre todos nós. A que ser humano incompatível darás o privilégio da tua entrega?

Agora _ Eis o filtro supremo que nos limita à nascença a miríade de potencialidades amorosas. Somos obrigados a fazer a nossa selecção no âmbito da população que vive o escorrer dos nossos dias. Quem me garante que nascerá daqui a um século a personalidade que mais fascínio traria ao meu cérebro? E quem me garante que ela afinal já morreu há séculos? Terá morrido no dia em que eu nasci? Nascerá no dia em que eu morrerei?

Aqui _ O filtro que nós já conseguimos manipular, ainda que de forma muito rudimentar. Na contemporaneidade que nos invade, existirá certamente alguém que sobressai. Essa pessoa pode nem chegar ao nível impressivo obtido por “concorrentes” que a História se encarrega de nos desencontrar, mas é a ideal por entre toda a gente actual no planeta. Qual a distância a percorrer para a encontrar? Que nação defenderá? Que língua e cultura impregnam os seus pensamentos? Poderíamos viajar incansavelmente e no entanto as hipóteses de não a tocar com os olhos são estatisticamente significativas e desanimadoras.

Disponível _ O fosso em que todos caímos. Provavelmente apenas uma fatia microscópica da população mundial evita esta lei. Provavelmente essas pessoas felizes são as que preenchem hoje as lendas que percorrem as bocas do mundo. Provavelmente esses deuses e deusas mortais souberam desde o primeiro olhar cúmplice que tinham escapado às três leis, especialmente gratos por não se submeterem à infelicidade causada pela aleatoriedade intransigente da lei “agora”. Provavelmente. A lei da disponibilidade traduz-se no conformismo puro. Conformismo por nos adaptarmos às pessoas que nos rodeiam. Não ao nível da amizade, mas ao nível do amor cego e verdadeiro. Como é fácil sermos subjugados à comodidade entorpecedora desta lei. Como é fácil sucumbirmos à felicidade não-extrema. Acata-se o facto de vermos alguém minimamente interessante que passa em frente ao nosso olhar [que não deixa (nem deixará) de procurar saciar-se] e imaginamo-nos a viver com ela. Pessoa interessante? Sim! Com ligações significativas com outrem? Não. Sim. Talvez. Então procuramos entrar em cena. Seja antes do início do primeiro dos romances, ou depois do mais recente divórcio. Ascendemos na hierarquia e pensamos erradamente que a cada passo que damos, atingimos o pico. A passagem do tempo acabará por nos confirmar o que recusamos ver inicialmente. Fazemos tudo isto, completamente alheios (à excepção de alguns casos) ao pensamento que nos grita “Estás bem longe daquilo que poderias ter alcançado… Não sucumbas!”.

quarta-feira, março 22, 2006

[42 / Piece Of Provocation]

A minha mais recente ideia provocadora: ir em grupo para um bar e cada um levar os seus headphones (ligados a um leitor de cd's/mp3). Depois deixar o movimento corporal ser formatado palas batidas que cada um ouve.
Ver a dessincronização na dança, não só entre cada membro do grupo (já que cada qual está a ouvir a sua música), mas principalmente entre o grupo e a multidão que ouve a mesma música em conjunto.
Seria uma espécie de caos controlado.

Gostaria o dj de ver uma actividade deste teor?

domingo, março 19, 2006

[41 / Fact]

Se tivesse de pagar uma multa por cada vez que imagino a possibilidade de partilhar momentos íntimos com diferentes pessoas que me prendem o interesse, estaria falido.

[40 / Tonight]

Breve mas intenso. É como descrevo este momento em que esqueço a minha ideia recente de que o facto de não se partilhar um romance não é um estigma. Foi essa a minha principal aprendizagem implícita depois de me ter sentido fascinado por alguém que feriu e transferiu.
Hoje preciso de uma mão para segurar, de uns lábios para beijar, de uma mente para explorar, de um corpo para amar.
Deve haver mentes tão bonitas por trás de caras que me passam tantas vezes ao lado... E eu não sei ver quais…

terça-feira, março 07, 2006

[39 / Such A True Sentence]

"Se acreditas no amor à primeira vista, não pares de olhar."
(in Closer)

Porque neste aspecto funcionamos todos à base da "tentativa-erro".

segunda-feira, março 06, 2006

[38 / Carnival Without Masks]

Posso estar a fazer uma análise completamente desfasada da realidade, mas pelo que vi este ano, no Carnaval, só uma pequeníssima minoria se mascara para ir para os bares e discotecas.
Mas a maioria também não é composta pelas pessoas que se vestem de uma forma habitual. Não. A maioria compreende as pessoas que se fantasiam.
A noite de Carnaval é igualmente válida para datings, por isso não se pode desperdiçá-la com máscaras que nos impedem de mostrar quem somos fisicamente.
É por isso que recorremos às fantasias: conjuga-se a "liberdade" de sermos quem quisermos no Carnaval, com o aspecto utilitário que procuramos.

sábado, março 04, 2006

[37 / Her]

Houve uma altura em que achei que eras a rapariga mais interessante que tinha conhecido pessoalmente. Ainda hoje me questiono sobre isso.
Linda nos teus cabelos pretos e olhos azuis.
Linda na tua forma de pensar. Gostava das opiniões políticas que partilhávamos.
Houve uma noite em que fiquei a olhar para ti enquanto dançavas com os "nossos" caloiros. Naquele momento vi-te como merecedora do estatuto de princesa, mesmo que ele só perdurasse uma noite.

Hoje que já tens o teu príncipe, voltei a ter aulas contigo. Pareces ter sucumbido ao espírito que invade o teu (e o meu antigo) curso. Não ficaste sentada ao meu lado, mas mesmo assim ouvi os teus vários queixumes acerca dos conteúdos leccionados na aula. Porque o fazias atrevidamente? Porque "desrespeitavas" o professor dessa maneira? A matéria que ouvias tinha um teor neutro... Porque chamavas a atenção daqueles que te são próximos e estavam a escrever apontamentos demoradamente? Porque passaste também a intercalar os apontamentos com frases desnecessárias ditas aos que estão em teu redor? Estavas hiper-crítica e não encontrei fundamento para essa atitude. Assemelhavas-te a tudo aquilo que eu sempre vi como negativo na mente de qualquer cientista social, a tudo aquilo que transborda nas palavras proferidas pela maioria dos meus ex-colegas. Se te tivesse conhecido hoje, associar-te-ia a eles.

Mas já te avaliei assumidamente a personalidade: foste voluntária nesse moroso processo. Espero que o teu comportamento de hoje se reflicta numa personalidade-estado. Espero que a tua personalidade-traço não seja diferente daquela que mostraste ter nos momentos em que convivi contigo.

[36 / Boredom In Classroom]

Supostamente seria uma aula prática, mas não o foi.
No meu caso foi uma aula completamente desnecessária em que no espaço de quase duas horas absolutamente nada se fez...
Não quero fazer role-play em pares durante uma hora acerca dos mesmos casos...

Psicologia assim não. Não mesmo.

domingo, fevereiro 26, 2006

[35 / Standard Patterns On How To Evaluate Someone’s Subjectivity]

Este post explica implicitamente porque é que nas aulas de Português os alunos podem discordar fortemente de interpretações oficiais de certos excertos poéticos.
Como cada qual descodifica o que vê/lê de acordo com aquilo que lhe faz mais sentido, é natural que as interpretações possam divergir entre indivíduos.
Mas uma vez mais a sociedade (neste caso a escola) força-nos a expressar de um modo padronizado aquilo que vemos. A tal ponto que passamos a adquirir uma tendência para analisar de um modo semelhante novas obras. Passamos a ter uma mente moldada pela estrutura vigente. Mas o facto de aprendermos esta capacidade comum, enriquece certamente o nosso conhecimento e capacidade de análise.
O exemplo que eu refiro funde-se (não só, mas principalmente) com as figuras de estilo que se aplicam exaustivamente na análise dos textos literários com que os alunos se deparam nas aulas.

E esta questão levanta outras igualmente interessantes.
Qual o processo que faz com que uma sociedade inteira active de um modo instantâneo um esquema cognitivo relacionado com um determinado conceito?
E como é feito esse moroso processo de aprendizagem, transmitido pelas gerações?
Como se conseguiu que uma multidão tenha a mesma noção do conceito “poder”?
E porque há variações no modo como explicitamos um conceito ao longo da História?
Serão os neologismos um modo de formatar o pensamento das próximas gerações?
Nós próprios estamos contaminados com a herança linguística dos nossos antepassados; ao usarmos a linguagem deles, conformamo-nos com o seu pensamento. Tornamo-nos previsíveis por isso.
Mas há algo que ultrapassa isto e nos dá a hipótese de sermos totalmente inovadores durante breves momentos: a mente de cada um. Parte do pensamento de algumas pessoas liberta-se das amarras sociais e reconstrói-se de um modo totalmente independente. E isso é algo que valorizo num ser humano.

E eu? Porque não escrevi este texto recorrendo a algarismos? Sim, vou fazer isso antes de divulgar este texto.

sábado, fevereiro 25, 2006

[35 / 8748564]

3540534987350116542198788764350156468741786748712089749
898634846341027887463541308567140638786306876876836876
5486730018647867848518670087470187684984410634186734687

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

[34 / Laugh]

Vai ser difícil conter o riso a meio das aulas caso me lembre das coisas que ouvi ontem. Digo isto porque hoje estava sozinho em casa a tomar banho e de repente não consegui conter o riso ao lembrar-me das frases hilariantes (pelo menos são-no para mim) que nunca me tinham passado pela cabeça.
Qualquer dia ainda vou ter um professor a interromper a aula para me perguntar se me estou a sentir bem, ou se quero partilhar com ele a piada que me tem feito rir há alguns segundos.

E já que estou numa de "humor", aproveito para escrever isto aqui na sala de computadores do CP1: ccd n xdmnjc mcv cmncfvm,xcd cfmncxdm xd,.cdfm,xdm, xm ,xd ,cv n m cm, cv mv cm,

Experimentem! Mas numa sala com gente desconhecida!
It feels damn good ! =)

terça-feira, fevereiro 21, 2006

[33 / Insomnia]

Deitar-me cheio de sono e acordar dali a três horas...
Olhar para o relógio e constatar que são 3:30...
Ir comer qualquer coisa para passar o tempo.
Voltar a tentar dormir e retomar aquele sonho esquisito sobre restaurantes com aranhas nas paredes, campos de futebol inundados e submarinos cujo objectivo é mandar torpedos a determinados pais...
Não conseguir retomar a objectividade dessa realidade que me invadiu durante alguns minutos antes de ter acordado.
Desistir.
Ter a Alanis Morissette como companhia à actividade cerebral que teima em não emitir ondas alfa...
Talvez tenha o meu ritmo circadiano desregulado...

Pensamentos sobre o segundo semestre.
Verificar que a cientificidade da matéria da disciplina de Psicologia da Atenção e Memória não corresponde às minhas expectativas: porque não me parece que se vá falar da duração necessária para que um momento relevante seja memorizado, nem vamos falar acerca do tempo que se traduz em esquecimento, nem do conceito que eu tenho acerca de "influência periférica" quando abordarmos a atenção. Pelo menos não vou ouvir essa matéria da forma cativante que tinha imaginado. Apesar disso, acho que vou gostar da cadeira.

É tempo de dar atenção ao meu despertador, recorrendo a um processo top-down : faltam três minutos para ele indicar "7:00" e começar a guinchar por todos os orifícios de onde sai o som em volume médio.
7:00
O meu tempo de reacção nunca tinha sido tão pouco a desligar um despertador cá em Braga.
É hora de substituir a companhia da Alanis pela dos colegas e professores.

sábado, fevereiro 18, 2006

[32 / Tangled In Reality]

Acabo de vaguear pelos profiles de uma amostra de pessoas da minha geração. Cheguei a uma triste conclusão: a esmagadora maioria está completamente entorpecida; são indivíduos incapazes de evidenciar qualquer tipo de desprendimento para com a realidade.
Já não há espaço para ilusões, para conscienciosidades, para introspecções.

“Quem sou eu? Lol. Sou suspeit@ para falar de mim. Os meus amigos são ideais para me descrever.”

Claro. São esses tais amigos que conseguem prever todas as suas atitudes e comportamentos, não é verdade? São eles que controlam todas as suas vivências e sentimentos, não é? São eles que conseguem aceder aos seus pensamentos mais íntimos e obscuros. Exacto, é isso. É uma espécie de transparência para com os outros, mas uma opacidade para consigo própri@.

Onde está a evasão mental? O aprofundamento de experiências?
Vejo um vazio nas pessoas e isso assusta-me. Vejo-as demasiado presas à segurança daquilo a que estão habituadas. Não as vejo dar um passo em frente. Vejo-as estáticas e conformadas a uma superficialidade extrema. Vejo-as a preencher os moldes que lhes são pré-existentes.
A minha pesquisa inundou-me de informação oca e padronizada. Não encontro nada que cative o meu interesse. Muito menos o meu fascínio.

É este o mundo cinzento que se auto-perpetua através das pessoas…
Será esta amostra representativa da população? Espero que não.

“Foto minha a fingir que estou a dormir. Lol.”
“Eu a ver um jogo do meu SLB!”
“Eu antes de sair de casa.”
“Eu com uma grande jarda!”
“O meu carro e eu.”
“Eu numa aula.”
“Com calor. Lol.”
“A pensar na vida.”


É suposto entrar em êxtase com afirmações deste cariz?

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

[31 / Cat]

Após uma conversa que veio confirmar certas previsões, encontro-me a conduzir, tendo uma amiga como companhia.
Um pequeno baque.
Não. Não podia ser. O som era muito semelhante ao ruído que surge quando um animal é esmagado pelas rodas de um carro em movimento.
Olhei pelo o espelho retrovisor e pareceu-me ter visto a imagem de um gato preto estendido a meio da minha faixa.
Fiquei claramente perturbado, mas não podia ir embora sem ter certezas do que acabara de ocorrer. Enveredo por uma estrada que me leva a um ponto geográfico anterior ao “acontecimento”. Percorro o percurso novamente, com a expectativa de ver um gato preto estirado na estrada.
Não encontro absolutamente nada. Não há vestígios.
Terei eu passado por cima de um dos pontos que assinalam a presença de uma passadeira?

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

[30 / Denial (or) Camouflaged Feedback]

Não sentia curiosidade em conhecer-te.
Não estremecia quando te via.
Não focavas a minha atenção quando sabia que estavas por perto.
Não ligava quando olhavas para mim antes de te afastares.
Não ficava desapontado quando te distraías e perdias uma oportunidade de me veres passar por ti.
Não reparava quando o teu amigo te informava que eu estava no teu campo visual.
Não me apercebia das vezes em que ambos cruzávamos olhares fugazes.
Não notava que me aparecias nos profile visitors do Hi5.
Não dava por mim a averiguar o teu profile quase compulsivamente em busca de novidade na informação que fornecias.
Não te estavas a tornar rival de uma paixão (sem feedback) mais duradoura.
Não me lembrava que ultimamente tinhas aparecido nos meus sonhos.
Nem sequer me recordava de que já houve uma vez em que te mandei uma mensagem que ficou por responder...

Não me deixei sugestionar entretanto por outra pessoa que soube como jogar e desaparecer sem se despedir.
Não penso agora em ti como uma possibilidade inscrita nos meus horizontes futuros.

[29 / Communication With Giants]

Quando obras literárias de excelente qualidade nos fornecem o endereço electrónico dos respectivos autores, não há inibições que nos impeçam de embrulhar um e-mail com elogios sinceros e enviá-lo.
Pelo menos eu penso e ajo assim.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

[28 / Astonishing]

Quando tenho experiências de ponto máximo, apetece-me chorar de felicidade.
Pena que o sentimento ocorra durante breves segundos…
Como será partilhá-lo com outra pessoa?
Sentir a mesma intensidade, exactamente pelas mesmas razões, com timmings idênticos.

[27 / Breaking The Implicit Rules]

A meio de uma conversa de teor estritamente profissional recebi um elogio rasgado. Fiquei sensibilizado pela espontaneidade do momento.
_________________________________________________________
Tinha ido a um shopping comprar um DVD. Passei pelo cinema só para buscar um panfleto que indicava quais eram os filmes que estavam em exibição e a hora correspondente de cada sessão.
Ao iniciar o percurso inverso, vi um homem dirigir-se a mim. Ele aponta para o meu panfleto. Toca-lhe. Pega-lhe. Começa a falar.
Uma observação rápida faz-me constatar que estou perante uma pessoa a quem já foi certamente diagnosticada uma psicopatologia.
Remexe as pequenas páginas do meu panfleto enquanto diz qualquer coisa que não percebo. Eu respondo, dizendo “Sim, sim…”. Ele continua a falar: “A senhora disse que vai entrar este aqui. Olha. Este!”. Aponta para uma fotografia promocional do filme "Orgulho e Preconceito". Pressiona a unha do polegar contra a fotografia. Volto a responder “Ah, ok. Obrigado.”. Ele procura melhor por entre as páginas do folheto. Desiste da busca e diz “O outro que vai entrar, não sei o nome. Mas a senhora disse que era ‘Azul’. Não sei… Mas vai entrar. As sessões estão ali escritas.”. Aponta para um painel electrónico montado numa das paredes do shopping. Volto a agradecer, digo que também não sei quais serão os filmes que estariam para estrear no dia seguinte. Ele devolve-me o panfleto e eu vou embora.

A beleza deste episódio traduz-se no facto de um estranho me querer apenas ajudar de certa forma, ao ver-me procurar informação sobre os filmes exibidos naquelas salas de cinema. Independentemente de me conhecer ou não.
O lado mais escuro deste episódio reside na minha vivência na selva urbana, que fez com que no momento em que o vi aproximar-se de mim, instantaneamente me tenha vindo à memória a imagem da abordagem idêntica que um rapaz teve para comigo quando me tentou roubar o telemóvel no Verão passado.
Também durante os breves segundos deste momento, lembro-me de pensar que a "sessão de esclarecimento" se iria prolongar por minutos, dado que estava a ser vítima de um programa de apanhados…
_________________________________________________________
Mal entro naquele café novo, noto que a empregada parece estar um pouco agitada. Sento-me com duas amigas. Ela surge com três listas. Entrega-nos e fica no mesmo local à espera que nós digamos o que queremos. Fico um pouco constrangido, porque isso costuma fazer com que eu não me demore muito na selecção.
Cada um dos nossos pedidos serviu para ela falar um pouco connosco. Isso é algo a que claramente não estamos habituados, especialmente quando a pessoa que faz isso nunca nos viu na vida.
Ela vira costas para ir buscar as bebidas que nós pedimos; nós sorrimos entre nós, confusos.
O regresso com as bebidas foi igualmente prolongado, sendo nós uma vez mais brindados com conversa.
Minutos depois, no fim da nossa estadia naquele local, quando estávamos prestes a levantar-nos, ela passa pela nossa mesa e vê lá pousados dois bilhetes de comboio. Pára e mete conversa acerca das viagens de comboio, compara as viagens de comboio com as viagens de autocarro, diz que já foi tropa e fala dos vários tipos de clientes que ela já serviu naquele café: desde os simpáticos aos antipáticos.
Saí de lá notoriamente confuso, mas ao mesmo tempo a admirar a capacidade dela em conseguir criar conversas com pessoas que lhe são completamente estranhas.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

[26 / 1000th Sneak]


Aconteceu. Neste preciso momento.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

[25 / The Cost Of A “Click” In An Isolated Techno Shrine]

Um dia vou ter dinheiro para esbanjar superfluamente no arrendamento de uma discoteca munida de um excelente sistema de luzes, e vou conseguir exprimir visualmente a pureza que me transcende quando ouço techno de qualidade.

Please give me sound, lights and smoke.
And I’ll be proud of such a photo session!

[24 / Corrosive]

Ele sacrificou as ilusões que tinha para com uma paixão anterior que nunca deu mostras de ser correspondida. Pensava que tinha chegado o momento ideal para se descartar dessa prisão que se arrastava por anos.
Mexeu-se.
Conheceu-a virtualmente, tal como mandarão os bons costumes num futuro não muito longínquo. Sentiu-se fascinado ao ponto de a querer conhecer.
Partiu.
Quando regressou tinha os horizontes embaciados e a mente cheia de certezas. Estava condenado a uma rotina dolorosa: perder-se em fantasias de paixões idealizadas e ser atirado para as lâminas da percepção de que não pode tentar ter relações duradouras quando nunca teve estrutura para acompanhar a velocidade da génese das relações interpessoais íntimas contemporâneas.
Por enquanto recusa qualquer perspectiva que lhe faça reatar as fantasias, mas a passagem do tempo vai fazer com que cometa os mesmos erros... Até conhecer outra pessoa que mais tarde ou mais cedo o rejeite da mesma forma.
Sim, a sua vida íntima resumir-se-á a este pêndulo. Ele é previsível.
Custar-lhe-á sempre caro violar inconscientemente as expectativas que são tecidas sobre si.

Entretanto, nós vivemos os nossos desafios, completamente alheios à história deste rapaz que vive do outro lado do mundo das facilidades.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

[23 / Who Are We?]

Estranha espécie, esta a nossa.
Enchemo-nos de rodeios e formalidades quando na verdade o que queremos é dizer tudo aquilo de positivo que nos vem à cabeça. Iríamos agradar a quem ouvisse essas palavras sinceras. Mas fazemos tudo mal…
Temos sempre medo das consequências.
E a verdadeira mensagem que queremos transmitir nunca chegará a ser descodificada porque foi exageradamente pensada e camuflada antes de ser enviada.

Por tudo aquilo que pensei, mas não disse, nem nunca direi.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

[22 / Production]

Todos nós nos queremos divertir.
Todos nós fazemos um esquema mental de como nos queremos apresentar nessa noite.
Todos nós esperamos que desta vez o conjunto final atinja a sua meta.

No entanto aparecemos todos lá da forma mais natural e banal possível.
Vamos lá pela música (certamente), mas isso não nos chega.

(Uma apresentação física que levou o seu tempo a ser estruturada em casa.
O número de vezes que se voltou a pentear o cabelo.
Os minutos queimados na fase de preparação, verificação e aprovação.
A saída de casa, a conta-gotas, de cada uma das pessoas que estão agora presentes na discoteca.)

Todos nós temos as nossas razões para estar lá.
Todos nós precisamos de alguém que nos apoie.
Todos nós esperamos que aquela noite seja memorável.

Bebemos álcool para nos divertirmos, para ficarmos desinibidos, e para conseguirmos transpor a imagem de que podemos estar vulneráveis face a tentativas indiscretas de conhecimento interpessoal. Isso é capaz de dar confiança à outra pessoa.

Todos nós esperamos ser abordados.
Todos nós queremos dar o beijo.
Todos nós esperamos que aquela seja a noite em que vamos sair de lá com a nossa alma gémea.

E no final da noite, continua a ser a "produção" a única que nos acompanha em todas as noites de glamour : sempre fiel, do início ao fim.

domingo, janeiro 29, 2006

[21 / Hidden]

Nem a rapariga mais bonita da discoteca (e de outro qualquer local) se consegue destacar na multidão de pessoas. Ela apenas consegue nutrir (sem o saber) fascínio nos outros quando estes a vislumbram, caso contrário poderiam estar ao lado dela sem nunca saber que ela nos prende sem ter de fazer muito.
A nossa influência periférica é muito reduzida, e o único modo de expandi-la é certamente através dos mass media.
Isto serve de aviso para mim próprio: nem a pessoa mais bonita consegue ser perfeita.

sábado, janeiro 28, 2006

[20 / An Effort To Change The Probability Of The Occurrence Of A Random Phenomenon]

Não te importavas de conduzir a noite toda no meio daquele labirinto chamado "cidade". Desde que conseguisses voltar a ver uma nesga daquele carro que tanto anseias conhecer...
Talvez um dia consigas. Estando ambos sozinhos.

[19 / Lost In Rotation]

E se um dia formos capaz de saltar, mantermo-nos a levitar e esperar (pacientemente) que o movimento de rotação da Terra nos leve a lugares longínquos?
Esse fenómeno fazer-nos-ia percorrer grandes distâncias, não fugindo nós nunca ao minuto de altitude terreste.
Como portugueses, teríamos como primeiro destino certo os EUA.
De um modo mais específico, eu como vianense, teria acesso a uma free ride aos EUA, Japão, Coreia do Norte, China, Quirguistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Turquemenistão, Azerbeijão, Rússia, Geórgia, Turquia, Grécia, Bulgária, Macedónia, Albânia, Itália e Espanha.
O mais fascinante de tudo isto é pensar que poderia visitar facilmente a cidade de Nova Iorque. Mas depois surgiu-me a dúvida: qual a cidade mais indicada para isso: Viana ou Braga?
A resposta surpreendeu-me. O local ideal é mesmo a zona norte da ria de Aveiro...
Se eu partisse de Viana, iria ter directamente a Massachussets...

Ou talvez estes cálculos estejam todos errados porque me baseei em mapas planos que desrespeitam a inclinação da esfera terrestre...

segunda-feira, janeiro 16, 2006

[18 / Million Dollar Honey]

(Sugestão para milionári@s que queiram "dar o nó")

Ele é milionário e quer pedir a namorada em casamento.
Leva-a a uma livraria e diz-lhe: "Escolhe um (e apenas um) livro de todos os que por aqui encontras. Depois compra-o, pede para embrulhá-lo e vem ter comigo para irmos juntos para casa. Leva o meu cartão de crédito. Lembra-te: se estiveres indecisa, faz a selecção, lendo apenas a contracapa.".
Ela percorre os corredores da livraria, escolhe o livro, paga-o, pede para o embrulhar e vai ter com o namorado.
Vão juntos para casa, levando o presente consigo.
Ele diz-lhe: "Agora desembrulha-o e abre-o na página cem".
Ela obedece e para além de ficar espantada com o que vê, fica também encantada com o facto de o namorado conhecer realmente os seus gostos.

À medida que uma futura noiva abre um livro na página cem e repara que lá existe uma folha colorida com a expressão "Queres casar comigo?", não muito longe dali, numa livraria, várias pessoas se encontram atarefadas, retirando uma folha com a expressão "Queres casar comigo?" da página cem de todos os exemplares que aquela livraria tem à venda.
Mais tarde essas pessoas serão remuneradas, não só por exercerem esta árdua tarefa, como também por terem simulado serem clientes aleatórios de uma livraria que tinha sido alugada durante algumas horas por um milionário apaixonado.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

[17 / Caution]

A efervescência de certos actos faz-me pensar no conceito de prudência, e guardar na memória as palavras que foram escritas a quente.

sábado, dezembro 31, 2005

[16 / Passage Of Time As A Cliché]

Enquanto ainda subsistem trinta minutos de 2005, considero pertinente fazer uma referência às minhas expectativas passadas.

Era fim de ano de 1999. O ano 2000 parecia algo de transcendente. E eu pensava que as pessoas seriam muito melhores a partir do momento em que se desse a mudança de ano; todos teriam a consciência de que se a partir daí mudassem para melhor, o mundo seria um local mais agradável.
Mas que erro, João...

Hoje é fim de ano de 2005. Cada vez que leio frases do género "Que o melhor de 2005 seja o pior de 2006", apetece-me distribuir por todo o mundo autocolantes com a palavra "cliché".

sábado, dezembro 17, 2005

[15 / Unskilled]

Começa a ser cada vez mais evidente ... a percepção que tenho das minhas falhas ... quanto às minhas capacidades de sociabilidade afectiva ... quando estou acompanhado por uma pessoa interessante.
Puxo assunto e desenvolvo conversas ... mas definitivamente não me sinto com competência para exceder essa fronteira ... não levando a socialização para outros campos igualmente interessantes.
E o único prejudicado sou eu.
Ou não chega a acontecer, ou acaba rapidamente.

Definitivamente preciso de prática. Preciso que puxem por mim quanto a esse aspecto.

[14 / This Pure Relax]

Sim, estou bem.
O pior já passou... Afinal o (Neurociências 1) que são cinco exames e uma oral no meu (Psicologia da Personalidade) futuro próximo? Nada de especial.
Vou fingir que o meu último relatório do semestre já (Introdução aos Métodos Quantitativos em Psicologia) está redigido, e libertar-me de todos os pensamentos relacionados com o trabalho que me tem percorrido a mente nos últimos meses.
Ahhhh... Férias! As verdadeiras (Intervenção Individual 1) responsáveis pelo meu estado de tranquilidade. A época em que nunca me deixo perturbar por assuntos (Psicologia da Aprendizagem) profissionais.
Fácil e garantidamente se comprova isso!

quarta-feira, dezembro 14, 2005

[13 / Stupidity And Happiness]

Não é raro deambular pela universidade e ver pessoas com cara séria ou triste. Chego mesmo a ver pessoas a chorar. O problema não é certamente da universidade, porque os não-universitários exibem o mesmo comportamento. Nem do país, porque no estrangeiro a situação é idêntica. Nem mesmo os meus professores doutorados afirmam ser felizes.
Mesmo aqueles comentários simpáticos que por vezes tecemos uns aos outros parecem não ter grande impacto...

Procuramos todos o mesmo, mas não o conseguimos encontrar. Fazemos ciência mas continuamos infelizes.
E chego à conclusão de que tenho momentos de extrema felicidade em curtíssimos períodos de tempo: aqueles em que não me importo de me sentir estúpido por ver/sentir algo de irrelevante que me cativa.
Não quero perder nunca esta capacidade de "fast-happiness".

Uma árvore despida com o formato de uma árvore de natal (daria uma boa árvore natalícia experimental) / A mudez com que os desconhecidos caminham nos corredores, com velocidades diferentes / Uma música que me martela o pensamento a caminho das aulas (com a consequente vontade de a cantar bem alto) / Um sorriso meu pela leitura das palavras (escritas a marcador preto) "Tó Carro" num sinal de trânsito que assinala a presença de uma paragem de autocarros / O deslize do meu corpo pelo assento de uma cadeira da biblioteca, para ver até que ponto as pessoas que estão na mesa em frente me dão atenção / O riso de uma pessoa com os olhos cravados num monitor estático / Sentir-me parado no tempo, vendo os outros fluir / (tanta coisa...)

[12 / Spread]

Sucesso notório quanto ao meu post anterior...
Para além de ter tido referências cibernéticas, até na biblioteca da universidade se fazem exercícios do mesmo género!

("E foi a casa buscar fotocópias"... Lol!)

segunda-feira, dezembro 12, 2005

[11 / Patterns Of Invisible Interaction]

A -> B -> C

A sente algo por B.
B sabe disso, mas nutre fascínio por C.
C tem uma noção disso, mas não interage com B.
C e A não se conhecem.
B fala com A, mas não com C.
B tem um blog chamado "Sensibilidades Plausíveis".

quarta-feira, dezembro 07, 2005

[10 / Pleasure]

É isso o que sinto quando vejo que uma sessão fotográfica me correu bem.
Sendo assim, esta segunda-feira à noite obtive prazer.
=)

segunda-feira, dezembro 05, 2005

[9 / Selectively Spoiled]

Quando as obrigações apertam, certos comodismos decaem.
Mas não há nada melhor para recuperar a saúde mental, do que nos mimarmos com aquelas pequenas coisas que tanto gostamos de fazer.
Gastar uma noite navegando-se na internet pode perfeitamente ser uma dessas coisas.
Outra é ficarmos (parcialmente) submersos numa banheira de água quente, enquanto ouvimos aquele cd que tanto nos espicaça a auto-consicenciosidade.
:)