sexta-feira, abril 20, 2007

[101 / I Want To Be An Expander, Not A Filler]

Há poucos meses tive uma conversa com uma amiga. Ela disse que andava a escrever uma história em co-autoria. Perguntei-lhe qual o tema da história. Tinha a ver com mundos fantásticos. Algo que raramente me desperta o interesse.
Foi com o desenrolar da discussão que obtive um insight quando ela me disse “Para quê escrever sobre este mundo que já conhecemos?”.
Acho que foi nesse momento que comecei a achar que uma pessoa interessante é alguém que tenta construir um novo ponto de vista sobre a realidade a que já nos habituámos. Alguém que explora e aprofunda esse desvio à rotina tão bem preenchida pelas massas. Alguém que procura difundir versões alternativas à banalidade, em vários aspectos das nossas vidas.

quarta-feira, março 21, 2007

[100 / Happiness Enhancer?]

Não me reconheço.
O meu mundo interno e o meu mundo social eram caóticos quando reingressei neste ano lectivo; hoje vejo esses dois mundos revestidos a ouro. O que mais me surpreende é a continuidade temporal que une estas duas perspectivas antagónicas sobre a realidade. Houve uma sequência transformacional tão lógica e progressiva, que só muito recentemente me apercebi do quanto mudei ao longo destes meses. Talvez o principal despoletador do boom se tenha dado nas vésperas da entrada neste ano de 2007, tempo no qual me dediquei a uma introspecção quanto à relevância das minhas interacções com as outras pessoas que me rodeiam. Foi aí que me apercebi que era tempo de me deixar de queixar silenciosamente acerca da superficialidade das conversas que estabelecia com o mundo, guardando exclusivamente para mim os momentos de seriedade profunda. Era a hora de deixar transbordar grande parte dos aspectos parcialmente invisíveis que me compõem.
Olho para o meu passado e vejo diferentes versões de mim, que tiveram o seu tempo de duração. Versões que nem sempre foram adaptativas e me trouxeram sofrimento. Versões que nunca deveriam ter desaparecido, devido aos efeitos benéficos que me proporcionaram. Versões que combinaram detalhes positivos e negativos de outras versões. Versões intencionalmente construídas. Versões impostas externamente. Versões que me obrigaram a aliviar o sofrimento interno, através da escrita (como é estranho ter visto que por vezes era obrigatório recorrer ao pressionar de teclas numa sequência específica de modo a atenuar a situação caótica e auto-destrutiva deste meu mundo interno). Versões que me fizeram sentir feliz (infância, tenho saudades tuas). Versões que me tornaram um mero fantoche na multidão. Versões que me levaram a um local onde nunca vi outro ser humano chegar, e me fizeram ter uma consciência aguda do quão independente eu conseguia ser face à massa populacional. Versões (prolongadas) nas quais eu habitualmente me silenciava/anulava, em prol da manifestação verbal e não-verbal de todas as outras pessoas (essas outras pessoas, ao verem-me sempre calado, partiam do princípio que nada de interessante poderia advir de mim). Versões que me deram a possibilidade de saborear experiências de ponto máximo. Versões recentes nas quais uma mera subida de escadas podia ser uma actividade psicologicamente desgastante (é, e será certamente desgastante para qualquer indivíduo, sempre que um turbilhão complexo de pensamentos o invadir). Versões que me faziam ter consciência do tempo que desperdiçava sem haver nada de relevante para registar nas minhas memórias de auto-realização (ou mesmo de auto-estima). Versões nas quais a proximidade física não tinha associação com a proximidade afectiva.
E eis que me deparo com uma nova versão; uma que deveria ter uma longevidade considerável, dado que concilia bastantes aprendizagens e muitos dos aspectos positivos de versões anteriores. Uma versão que engloba os meus novos insights completamente refrescantes e que me trazem um novo ponto de vista nesta habitual observação do mundo. Subscrevo agora uma visão compreensiva, diferente daquela que já tinha adquirido. Talvez seja uma visão compreensiva mais sofisticada, que analisa apaixonadamente a infinidade de possibilidades humanas. É bom ver que certas competências que eu pensei que estivessem já aniquiladas, afinal ainda sobrevivem dentro de mim.
São vários os insights que me assolaram ao longo dos últimos tempos, provenientes da minha presença nas aulas e da observação de comportamentos:
_ especificidades nos conteúdos aprendidos em Psicologia da Aprendizagem;
_ especificidades nos conteúdos aprendidos em Introdução às Neurociências I;
_ especificidades nos conteúdos aprendidos em Genética e Evolução;
_ especificidades nos conteúdos aprendidos noutras cadeiras que frequentei
(talvez com menor intensidade);
_ globalidade procurada por cada indivíduo;
_ tempo dispendido em enriquecimento pessoal;
_ inteligência afectiva e inteligência de auto-estima;
_ minimização da alteridade e consequente reformulação da interacção com outras pessoas;
_ seres humanos como portadores de um sistema de crenças modificáveis
.

Explicar o contributo de cada um destes insights seria um grande desafio, e talvez um dia eles venham a ser tema de futuros posts. Uma conversa produtiva acerca destes assuntos seria igualmente enriquecedora e teria a vantagem da interactividade em tempo real.
É a integração de todos estes insights que me está a transportar até uma posição muito específica. Um ponto nunca atingido por mim antes. A exploração de uma multiplicidade de histórias de vida com validade equitativa tem agora novos contornos. Espero conseguir manter-me assim durante muito tempo. Espero resistir ao cinzento da estrutura quotidiana (porque apesar de eu ter mudado, o mundo parece estar igual; será uma questão de tempo até voltar a ser confrontado com a discrepância entre a fluidez da minha modificação interna e a lentidão da modificação externa).
E a questão fulcral: porque é que só ao fim de vinte e dois anos é que finalmente consegui chegar a este estado?

[99 / Question & Answer]

Outra pergunta interessante formulada pela Alanis, este mês:
If you could say one thing and the whole planet would be listening, what would you say?”.

A resposta que enviei:
"I would say: 'don’t ever silence a compliment you really want to give to someone as they will be glad to know you have a positive opinion on something about them; a new compliment is never too much'”.

[-- / Heard Quotes (To Be Filled From Time To Time)]

“A paixão consome-nos muita energia. É por isso que não conseguimos estar permanentemente apaixonados.”
(Professor de Psicologia da Aprendizagem)

“Uma pessoa com personalidade narcísica sente-se invulnerável.”
(Professor de Psicologia da Personalidade)

"O grave problema é quando uma pessoa com sintomas de personalidade narcísica de repente se apercebe que é tudo menos invulnerável. Aí, desperta-se-lhe o caos interno e o modo de auto-destruição.”
(João Gil Martins)

"Por vezes temos aprendizagens implícitas que nada têm a ver com as aprendizagens objectivas de quem nos ensina naquele momento."
(Professor de Psicologia da Atenção e Memória)

“Há pessoas nesta sala que são certamente sobreviventes de diversas situações de risco."
(Professora de Impacto Psicológico da Adversidade)

"As pessoas são diferentes. As relações que daí resultam também são diferentes. É por isso que o colorido é diferente quando temos um novo relacionamento com outra pessoa.”
(Professora de Intervenção Individual 2)

"Amamos uma pessoa de cada vez, mas várias ao longo da vida... São monogamias sucessivas."
(Professor de Sociologia da Saúde)

"Só nos matamos uns aos outros em teoria. Se nos matassemos na prática, já não haveria pessoas no mundo."
(Encenador do curso de introdução às técnicas teatrais)

"A vergonha é uma emoção altamente destrutiva."
(Professora de Impacto Psicológico da Adversidade)

"As nossas vidas não são um filme... ...yo!... Baza. Vai para casa. Baza, vai para casa."
(Professor já citado)

"Há mortes mais serenas que determinados processos de vida."
(Professora Clara Oliveira, oradora de uma conferência sobre "Vida, Sofrimento e Morte")

"A morte só é desejada por reforço negativo: ela acaba com o sofrimento."
(Professora de Psicopatologia do Adulto)

"Todas as relações são estáveis... enquanto duram."
(Professor José Cruz, orador de uma tertúlia sobre "Sexo e Desporto")

"Adaptação promove adaptação. Desadaptação promove desadaptação."
(Professora de Prevenção em Saúde Mental)

"Jogamos a lotaria dos genes e temos de acomodar-nos com o que vem."
(Professor de Intervenção Organizacional)

"A credibilidade ganha-se por aquilo que alguém é."
(Professora de Psicopatologia do Adulto)

"Fazemos o melhor que podemos num dado momento, mas por vezes até esse melhor é muito mau."
(Professora de Psicopatologia do Adulto)

"As pessoas escondem parte dos seus problemas por não saberem se nós somos dignos de ser o depósito deles."
(Professora de Psicopatologia do Adulto)

"Aparecemos na vida uns dos outros por acaso."
(Professora de Psicopatologia da Criança e do Adolescente)

"Temos de ter cuidado com quem casamos, até porque pode ser algo para toda a vida..."
(Professora de Psicopatologia da Criança e do Adolescente)

sábado, março 03, 2007

[98 / Save Your Love For Someone Who Can Share It Back]

Uma pequena nota para mim (talvez assim não volte a esquecê-la): não voltes a apaixonar-te pelas pessoas certas que não o são em aspectos fulcrais.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

[97 / Our Self-Trapped Brains Which Tendencially Just Show The Superficial Part Of Themselves, Ending Up Meeting Repeatedly The World's Boredom]

Imagino-te. Sobrevalorizo-te. Idealizo-te. Sonho-te. Reforço-te. Enalteço-te. Profetizo-te.
Procuro-te.
Desencontro-te.

Não existes no meu mundo social. Não te sei ver. Não te sei ler. Não te sei.
Existes no meu mundo social? Então porque não te vejo? Porque te escondes? Porque não me conheces? Porque não tens acesso à minha essência? Porque sucumbimos ao terror da solidão emocional?
Não existes no meu mundo social. Apenas no meu mundo imaginário; naquele mundo em que as facilidades são uma constante e o festival rotineiro da proximidade física em contingência com a distância emocional é abolido impiedosamente; naquele mundo tão silencioso e intransmissível que facilmente se evapora quando sente a presença da curiosidade irresponsável do mundo externo.

Evaporo-te. Condensas-te. Quero solidificar-te. Gaseificas-te.
Ambos peões neste jogo da supressão do íntimo.
Um exercício de vazios.

Tento conformar-me à tua presença etérea frágil; à tua inexistência no mundo dos lábios que se tocam, dos olhos que se humidificam, das respirações que se aceleram, dos cérebros que se inundam de serotonina.

Não existes no meu campo visual. Ou será que existes?
Alcanço-te? Ignoro-te? Venero-te? Afasto-te?
Perguntas sem resposta.

Tens tanto para oferecer(-me). Será tão pouco o que verei.
O que verás de mim? O que verei de ti? Apenas o teu movimento: aquilo que o teu cérebro me irá mostrar; aquilo que irás ver de mim; aquilo que os nossos sistemas nervosos mostrarão ao mundo, ignorando as consequências nefastas de guardarem para si próprios a actividade mental que nos permitiria descobrir a beleza da nossa consistência.
Tanta actividade cerebral nobre posta em prática e no entanto apenas uma parte banal é deliberadamente exteriorizada.

Quando te encontrarei, cérebro sublime? Quando te mostrarás na tua globalidade?

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

[96 / Frustration #2]

Involuntariamente faço parte do grupo maioritário dos resultados deste referendo. Sim, fui forçado a integrar a percentagem da abstinência.
A indisponibilidade não-crucial dos meus pais para me transportarem de Braga a Viana (após um concerto cansativo que me impediu de me ajustar aos horários dos transportes públicos domingueiros) é algo que nunca esquecerei. Algo que não será facilmente desculpável. O embaraço é mais notório ainda, sendo eu um ex-estudante de Sociologia.
Espero que esta seja a única mancha no meu “currículo político” como cidadão activo no processo de mudança de uma população que gosta de criticar exaustivamente todas as coisas que observa e que aprecia a lentidão extrema da evolução das mentalidades neste canto geográfico.

Pelo menos ninguém me impediu de aplaudir e de sentir um arrepio de alegria quando vi que o “Sim” ganhou.
Queria tanto que o meu voto tivesse sido contabilizado...

[95 / Frustration #1]

Regresso de uma viagem cansativa. Fui ver o primeiro dos concertos dos Nine Inch Nails. A expectativa deu lugar a alguma desilusão. O concerto foi, na sua maioria, um exercício de restrição física e psicológica.

Vários são os motivos (exponho alguns deles):
_ a subversão das minhas expectativas quanto aos fãs; esperava deparar-me com maiores níveis de sensibilidade e sofisticação (fui brindado com fãs que acham natural ir assistir a um concerto de Nine Inch Nails enquanto envergam t-shirts de outros grupos musicais);

_ a agressividade pronta a ser posta em prática por algumas das pessoas que estavam no recinto (Não chegamos à primeira fila? Oh, daqui a bocado, quando isto começar e o R. começar a dar pontapés, chegamos à primeira fila e ninguém nos tira de lá!);

_ a fluidez com que nós (fantoches, ou “pigs”, tal como o Trent Reznor legitimamente nos chamou) nos movíamos involuntariamente ao sabor dos empurrões e crowdsurfing dos fãs mais “fuck it, I don’t give a shit”; a minha atenção tanto dava primazia ao concerto como ao meu próprio equilíbrio;

_ a impossibilidade quase permanente de observar o Trent durante uns dez segundos sem ter uma cabeça de alguém mais alto a bloquear-me o campo de visão (e eu estava na terceira fila em frente ao palco…);

_ serem tocadas demasiadas músicas que incentivavam o baixo limiar de euforia dos fãs mais expansivos (quanto mais barulho, melhor); a setlist poderia conter, a meu ver, músicas mais recentes e dignas de serem ouvidas em exibição ao vivo (houve pérolas que não foram incluídas; tinha previsto uma “Right Where It Belongs” mágica e intensa, mas ela nem sequer existiu naquela noite);

_ a beleza dos efeitos visuais presentes nos concertos americanos não marcou presença no concerto português.

Muito provavelmente algo nos unia a todos os que lá estávamos: a vivência presente ou passada de uma perturbação depressiva major e a aceitação do “conforto” que as letras e a música acabam por dar. Mas para além da grande probabilidade da existência desse aspecto comum, cada vez mais me convenço de que mais ninguém foi exactamente pelos mesmos outros motivos que eu.

Não sei até que ponto o Trent se sente representado por esta amostra de fãs que não se importa em dar um maior fôlego a quem gosta de entiquetar os estilos musicais… Porque aquilo a que eu assisti não foi a obra de um génio ser elevada até ao posto que lhe está reservado. O que eu vi foi uma reprodução ao vivo do rock que existe na memória de qualquer pessoa que já tenha assistido a um concerto desse estilo musical (nem que seja através dos media). E o Trent diz “I don't even like rock that much…”. Então porquê um concerto de rock? Havia tanto por onde escolher para a setlist. Porquê escolher o caminho mais fácil e mais despoletador de euforia nos fãs que o admiram por ser mais um facilitador de headbangs?
Talvez um dia venha a sabê-lo…

domingo, janeiro 28, 2007

[94 / From The Macro Apathy To The Micro Sublimity]

Sinto-me fascinado por saber que finalmente posso ventilar as minhas experiências internas.
Decapito a ideia de que a qualidade no seu estado puro é incongruente com a proximidade geográfica. Volto a ter esperança na minha geração.
Encontrei um sistema nervoso que reside nos píncaros da busca incessante pela realização! Que coerência! Que metodologia! Que competência! Que sensibilidade! Que nobreza!

Não costumo gostar de recorrer a citações (fazem-me sentir um mero reprodutor das palavras que alguém forjou, por muito que me reveja no conteúdo das palavras transcritas), mas acho que a pertinência do refrão desta música (cuja letra me representa a um nível de 99%) é gritante:

“I can feel so unsexy for someone so beautiful/
So unloved for someone so fine/
I can feel so boring for someone so interesting/
So ignorant for someone of sound mind”
.
(Alanis Morissette, “So Unsexy”)

sábado, janeiro 20, 2007

[93 / Crash]

A batalha entre o interno e o externo parece não ter fim.
Por muito que nos esforcemos por ser melhores pessoas, a intensidade com que exercitamos o pensamento quase nunca é assinalável aos olhos dos outros. O conteúdo das nossas ideias nunca transparece para o exterior, a não ser que façamos algo que realmente seja observável.
Não poder ser transparente quanto aos meus pensamentos é algo que me incomoda. De certa forma acabo por reproduzir o padrão sufocante da superficialidade das relações sociais que com tanta destreza nos entorpecem e nos limitam o acesso à felicidade. Tenho pena por ainda não saber destruir essa limitação. Acho que é claramente um dos aspectos que tenho de trabalhar nos próximos tempos. Mas ao mesmo tempo torna-se difícil. Há dias em que ainda me parece Natal, mas o desânimo vem quando me cruzo com as caras que a minha memória reconhece e me indica que devo retribuir o cumprimento e o sorriso formal enquanto os meus pés continuam a levar-me até ao caminho que tinha traçado previamente. Os outros não notam absolutamente diferença nenhuma em nós nesse momento particular.
Penso nesta questão porque há poucos dias aconteceu-me algo de inédito enquanto estava numa fila de uma cantina universitária. Seríamos quatro pessoas a partilhar a mesma mesa naquele jantar. Por diversos motivos acabámos por inserir-nos na fila heterogeneamente. Pego no tabuleiro e no resguardo. A fila avança. Nos talheres. Avanço. No pão. Avanço. Na mousse de chocolate. Avanço. Encho o copo com sumo de laranja. Chegam à fila as duas últimas pessoas que partilhariam o jantar comigo. Constatavam que como já não nos viam na fila, teríamos já indo para a mesa. Uma delas referiu “O J. deve estar com tanta fome que já subiu. E o outro?”. Eu era o outro. Numa questão de segundos a minha existência era reduzida à insignificância de alguém sem nome. Não tinha a dignidade de ter uma associação a algo de palpável. Era feito de uma consistência efémera e irrelevante. E foi então que pensei nesta questão da invisibilidade do peso dos pensamentos que me percorrem o cérebro. No quão frágeis eles são. No quão débeis são, por não terem a capacidade de se transporem para o mundo que partilho com a humanidade que me rodeia. A convicção, as ideias, o turbilhão que apenas invade um único ser humano. Um único ser humano. No quão fácil é falar levemente sobre selves alheios, sem haver noção do funcionamento interno deles. No desrespeito.
Estes pensamentos prolongar-se-iam durante mais alguns segundos, mas aconteceu o impensável. Desbloqueei-me ao ver que o meu tabuleiro se movia, deixando-se levar pela verticalidade. As minhas expectativas das leis da Física estavam a ser violadas. Não ouvia som. Parecia que aquilo não estava a acontecer. Mas estava. Confirmei isso enquanto observava imóvel a trajectória do tabuleiro até atingir o chão e fazer um estrondo. Os pés das pessoas que estavam ao meu lado deram um salto e viraram-se para o tabuleiro. Na minha mão ainda permanecia o copo. Intacto. Nem uma gota de sumo desperdiçada. Apenas a mousse de chocolate teve como destino ser limpa por uma funcionária de olhar cúmplice em vez de ser ingerida por mim.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

[92 / Auto-Pilot]

Há (muitos) momentos em que gostava que os meus dedos fossem conduzidos por forças invisíveis e me fizessem carregar nas teclas que me levassem ao lugar mais relevante de toda a Internet.

domingo, janeiro 14, 2007

[91 / Interesting]

Nunca o conceito empírico de pre-committment tinha feito tanto sentido. A sua aplicação ao mundo quotidiano é realmente poderosa.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

[90 / Music To My Ears]

Novo objectivo: ter aulas de Filosofia da Existência.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

[89 / Poignancy (or) Releasing The Tormenting Ghosts]

“How to stay paralyzed by fear of abandonment?/
How to keep people at arms length and never get too close?/
How to mistrust the ones you supposedly love the most?/
How to pretend you’re fine and don’t need help from anyone?/
How to feel worthless unless you're serving or helping someone?/
How to keep smiling when you’re thinking of killing yourself?”

(Alanis Morissette, “Eight Easy Steps”)

Posso personalizar, Alanis?

Como apresentar Distimia, Perturbação Depressiva Major, Perturbação Aguda de Stress e Perturbação de Stress Pós-Traumático no currículo psicopatológico de uma história de vida relativamente jovem?
Como começar a pensar que na vida parece haver um equilíbrio (o tempo passado em momentos felizes será contrabalanceado com momentos infelizes de maior intensidade e duração)?
Como pensar erradamente que num cérebro a Distimia será a única perturbação em remissão completa?
Como ser um caso clínico de comorbilidade?
Como ser abandonado pela resiliência?
Como ouvir as mais corrosivas palavras de sempre?
Como constatar que essas palavras são de facto dirigidas a alguém que vemos constantemente em qualquer espelho?
Como associar essas palavras a uma pessoa completamente satisfeita com o impacto negativo que provoca?
Como ver a auto-imagem degradar-se numa questão de segundos?
Como sentir que se morre sentado numa cadeira de uma sala universitária enquanto se passam apontamentos a limpo?
Como sentir o coração a bater desenfreadamente devido à humilhação pública?
Como reparar que nesses momentos a tarefa de passar apontamentos com letra legível se torna impossível?
Como querer fugir daquele local?
Como permanecer sentado enquanto se ponderam os prós e contras das opções de não reagir, reagir com violência ou desaparecer?
Como pensar que a partir dali nunca mais se será a mesma pessoa?
Como reparar que as palavras corrosivas são partilhadas por outras pessoas, talvez devido aos processos de grupo?
Como permanecer fisicamente numa sala de aula, apesar do cérebro estar bem longe dali?
Como escrever “FALLING DOWN” num caderno preenchido por teorias sociológicas e ter uma amiga a perguntar o motivo para a redacção dessas palavras, não obtendo uma resposta conclusiva?
Como não saber se o regresso a casa é bom ou mau sinal?
Como chegar a casa, trancar-se na casa de banho e chorar ao som da música mais negativa que se consegue encontrar nesse momento?
Como não querer enfrentar o mundo no dia seguinte?
Como não conseguir deixar de pensar na escuridão que o futuro reserva?
Como querer escrever alguma coisa, independentemente do seu nexo, de modo a aliviar por breves instantes o sofrimento indescritível que se experiencia?
Como reparar na eficácia brilhante de se despoletar silenciosamente auto-destruição noutro ser humano?
Como relembrar a frase de um filósofo “toda a gente procura o bem-estar; mas e se eu não o quiser?” ouvida numa aula e aplicá-la à motivação cruel da autora das palavras corrosivas?
Como não conseguir esquecer a existência da pessoa responsável pelo surgimento dos pensamentos intrusivos, tendo a noção de que ela provavelmente já nem se lembraria naquele momento que a vítima ainda permanecia neste mundo?
Como tentar prever se o dia seguinte traria novos ataques psicológicos?
Como sentir que se está na corda bamba por não imaginar que se podia experienciar algo tão devastador?
Como não aguentar a pressão e ir à varanda avaliar a altura que a separava do chão?
Como respirar fundo enquanto se tenta processar um turbilhão de pensamentos?
Como precisar urgentemente de ajuda sem que ninguém o saiba?
Como afastar-se da varanda por se receber uma mensagem de uma amiga perspicaz a perguntar se está tudo bem, e responder-lhe que sim?
Como tomar a decisão de estabelecer uma meta de um mês de vida até voltar a reavaliar-se os desenvolvimentos dos episódios após esse dia?
Como voltar à casa de banho para chorar novamente?
Como permanecer lá dentro até ser hora de jantar, sair e ir sentar-se num sofá para se ir comer ao lado de um colega, disfarçando um sorriso enquanto se tenta ao máximo procurar distracções nas imagens exibidas pela televisão?
Como levar a primeira garfada à boca e sentir um vómito causado pelos nervos incontroláveis?
Como voltar ao refúgio da casa de banho?
Como sentir tremuras, abanões e náuseas?
Como tentar adormecer-se e não se conseguir fazê-lo?
Como mandar uma mensagem desesperada a um amigo e receber um relatório pendente?
Como pensar que não existe nada mais com relevância suficiente para libertar o cérebro dos pensamentos de auto-destruição?
Como não aguentar o silêncio nocturno e voltar a ligar a música até finalmente, ao fim de algumas horas, se adormecer?
Como acordar-se cedo demais no dia seguinte?
Como obter a confirmação de que nunca antes se tinha sentido tão vivamente o desmoronar da segurança do mundo dos sonhos e se acorda para o realismo intenso de um pesadelo?
Como caminhar até à universidade e esperar pela possibilidade da reexperienciação da humilhação sentado num banco à porta da sala de aula?
Como constatar com alívio que as pessoas envolvidas no acto de humilhação não comparecem na aula?
Como imaginar o sorriso sádico feminino que espera pacientemente para se manifestar no momento do primeiro reencontro?
Como sentir ódio e repúdio puro por parte de outro ser humano(?)?
Como perder grande parte das memórias do resto desse segundo dia, sexta-feira?
Como voltar à terra natal com a noção exacta de que nada mais faz sentido e que não se quer abandoná-la, mesmo que isso implique o sacrifício da ascensão profissional?
Como alegar cansaço quando umas das primeiras frases proferidas por uma mãe são “Que se passa? Sentes-te bem?”?
Como querer jantar com os pais e voltar a sentir vómitos?
Como ir para o quarto e saber que uma conversa urgente tida com o amigo da mensagem pendente é a única coisa que estagna a descrição do episódio traumático na presença dos pais?
Como saber que a realização dessa conversa iria desestabilizar permanentemente a coerência familiar?
Como pensar que o amigo específico será a única tábua de salvação possível, desabafar com ele, e vê-lo na melhor das suas intenções a recorrer à sabedoria popular da inutilidade do “tens de esquecer isso”?
Como constatar que se está envolvido neste sofrimento sozinho?
Como vir a saber meses mais tarde, que aqueles precisos dias traumáticos para a vítima foram dos melhores da vida desse amigo, por coincidirem com o início de uma relação íntima relativamente longa?
Como voltar a pensar nas frases “deixa lá isso/tens de esquecer isso” com ironia?
Como lidar com a ideia de que um pedido de ajuda explícito foi substituído por actividades de teor bem mais interessante?
Como achar que esta discrepância de vivências é tremendamente injusta?
Como não poder falar dos pormenores do evento traumático a mais ninguém?
Como passar a desconfiar das pessoas que dão sinais de ter uma atitude semelhante perante um pedido sincero de ajuda?
Como sentir que se caiu num buraco escuro de onde ninguém obtém ajuda para sair de lá?
Como tocar no fundo dos abismos e constatar que o seu chão é feito de areias movediças esfomeadas?
Como saber com desespero renovado que claramente não se esquece algo atormentador, e que o trauma poderá voltar a surgir novamente através de diversas formas inventadas pela dona do sorriso sádico?
Como pensar que provavelmente a repetição do episódio humilhante em frente a outros amigos, seria uma fonte inesgotável de prazer por parte dos perpetradores do episódio traumatizante?
Como bloquear com pensamentos deste cariz?
Como sucumbir perante a impotência e o terror?
Como constatar que os medos se podem tornar numa realidade observável?
Como abandonar a terra natal e voltar para junto da boca do lobo, numa segunda-feira fingindo que tudo está bem?
Como tremer ao saber da proximidade física dos carrascos?
Como vir munido de ajuda sonora e querer permanecer em casa o máximo de tempo possível, enquanto se gritam músicas de teor negativo existencialista?
Como sentir partilha do sofrimento reproduzindo as palavras do conteúdo musical, enquanto se está no chão a reexperienciar cognitivamente o momento traumático?
Como permanecer sentado numa banheira com a água quente ligada durante mais de uma hora e sentir-se morto?
Como misturar essa água quente com água salgada e sofrida?
Como sentir que há problemas que têm apenas uma solução irreversível, que culmina nas estatísticas de várias instituições públicas?
Como querer que a morte chegue depressa?
Como desejar ardentemente possuir uma arma e reproduzir um dos mediáticos massacres académicos americanos, mesmo que depois surja a etiquetagem errada de psicopatia?
Como sonhar com as várias formas de tortura, de modo a poder-se aplicá-las em prol do estabelecimento de algum sentido de justiça?
Como tentar pensar em maneiras de induzir o mesmo sofrimento psicológico nas personagens responsáveis pelo episódio traumático, para que pudessem ser brindadas também com o sabor da crueldade humana?
Como abandonar essas cognições e incutir no pensamento que a forma de vingança se limitará à dignidade de uma espera indeterminada até que a aleatoriedade da morte permita proceder-se à cuspidela no jazigo da dona do sorriso sádico (caso a longevidade seja maior para o caso da vítima)?
Como aguentar o pesadelo mórbido destes sintomas durante os intermináveis dias que compõem seis meses?
Como recuperar mnesicamente apenas os momentos em que houve novas humilhações por parte das mesmas pessoas?
Como perder a traquilidade quando se observa a personagem do sorriso sádico?
Como tremer por escrever este post?
Como querer apagar da memória o fatídico dia de 24 de Março de 2004?
Como voltar a reexperienciar alguns destes sintomas, anos mais tarde, por um período mais curto de tempo, e por razões diferentes, numa fase sazonal balnear na qual toda a gente parece aproveitar a ausência de trabalho para arriscar ser feliz?
Como não encontrar resposta à questão “o que é que eu fiz para ter de passar por isto?”?
Como sentir que se compreende demasiadamente bem o sofrimento de qualquer pessoa com uma depressão verídica e grave?
Como achar que ler um episódio de vida é TÃO mais fácil do que experienciá-lo?

“I've been doing research for years/
I've been practicing my ass off/
I've been training my whole life for this moment, I swear to you/
Culminating just to be this well-versed leader before you.

I’ll teach you all this in eight easy steps/
A course of a lifetime, you’ll never forget/
I'll show you how to in eight easy steps/
I'll show you how leadership looks when taught by the best.”
(Alanis Morissette, “Eight Easy Steps”)

As inscrições encontram-se abertas; serão tidos em conta os processos de grupo que possam advir por parte da dinâmica dos inscritos.

terça-feira, dezembro 12, 2006

[88 / Love Calculator (Because It All Lies Down On Statistics)]

Pensava que tinha recebido mais um daqueles e-mails que pediam para que o reenvio fosse feito para vinte pessoas, caso contrário não receberia mil vales de desconto em hipermercados Lidl… Estava enganado. Pela primeira vez conseguiram com que eu fizesse publicidade a um site proveniente de um e-mail. Provavelmente será a única.


(Because it all lies down on statistics)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

[87 / Shine, As If It Was Truly Coming From You]

Não é muito difícil saber se uma pessoa orgulhosa ficou a pensar nas palavras que uma vez lhe expus, apesar de ter permanecido inexpressiva durante esse momento argumentativo.
Ela é facilmente apanhada a reproduzir exactamente as mesmas palavras que previamente lhe disse, como se fossem da sua autoria.

sábado, novembro 25, 2006

[86 / The Insightful Chat]

Esta foi certamente uma das conversas mais ricas que já tive através do MSN. Ela abordou temas bastante pessoais, mas há algo nela de divulgável: o insight que ela me fez ter.
Como editor desta "filtragem", achei pertinente omitir certas passagens de diálogos sobre temas mais intimistas.

"Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
we are all stuck with this human condition
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and the reality is
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
in 200 years from now
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
the world will be different
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
but the people...
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
they will be going through the same thing as we are
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and spend their whole lives thinking.
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
2000 years ago
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
I am sure people spend their whole lives thinking
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
the world does get smarter technology wise and stuff
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
but emotionally
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
we all start from zero
[The Nacissistic Blurred Photograph I Decided To Post Because Of The Funny Expression It Captures] diz:
yeah.... it remains the same
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
it would be great if people could learn from generations before
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and be wiser emotionally as we are with science
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
because science can be passed down
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
but the human condition can’t
(…)
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
so right now
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
we as everyone else are diseased with the human condition
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
I guess it's not a bad thing
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
but we need to learn to deal with it
(…)
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and Oprah said and I think I agree is that people are reborn at 50
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
that's when people really know themselves
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
they know what they want
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and there is no other way but to get there
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
only with time
(…)
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
but I am not saying anything conclusive now
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
because
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
I am sure in 5 years from now
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
we will look back
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and we will be 5 years wiser
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and know something we don’t know today
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and we might think we have the answer then
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
but then 5 years after that...
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
we will look back…
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
it never ends
(…)
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
I guess it ends with death"

quarta-feira, novembro 15, 2006

[85 / 21 Things I Also Want In A Lover]

Já que não tem havido um único nome a invadir o meu “departamento emocional íntimo” há alguns meses, talvez não seja má ideia usar este meio para fazer umas filtragens.
A Alanis Morissette escreveu a letra da música “21 Things I Want In A Lover”.

Acho pertinente considerar a minha versão (não sobreposta à da Alanis, mas sim complementar).

Are you visionary?
Are you good at observing others?
Do you often feel the warmth on your brain when you’re engaged in truly deep thoughts?
Do you feel the majority of other people tend to be superficial even when they want to be seriously responsible?
Do you see beyond the phenotype (outfit and looks)?
Do you expand yourself by liberating your thoughts from narrow-minded cultural points of view?
Are you sensitive, competent and reliable?
Do you not steal others’ chances to be heard?
Do you reinforce discreetly those who are really crawling for it, rather than to point it as their flaw before the reinforcement is given?
Do you not mind exposing your pure thoughts even if there is a risk of them being labelled as ridiculous in front of the blind and unsharped minds, believing that someone else in the crowd will be noticing the sublimity of your acts?
Do you feel you can be the safety rope of someone with special qualities (won’t you let that someone down when you know you’re truly needed?)?
Do you respect other points of view and motivations, as long as they’re harmless to the population?
Are you on your way for your plausible internal workings to be widespread?
Do you have a baggage of justified extreme emotions?
Are you afraid of common sense?
Are you adaptable to different relevant contexts?
Are you mentally challenging?
Do you like to explore fruitful minds because you know you can actually learn precious teachings from it?
Do you feel your uniqueness is not understood?
Are you open-minded and experimental?
Haven’t you felt any difficulties at all fitting these 20 aspects (I’m a bit tired of those who fit everything perfectly but just on the surface)?

segunda-feira, novembro 13, 2006

[84 / One]

Tão diferente é o meu estado actual...
Um ano, do qual pouca foi a relevância das experiências vividas. Daquelas experiências que realmente são positivas e me fazem sorrir, relembrando-as agora sem a interferência subjectiva da proximidade temporal.
Nadar em seco. Sim, é isso o que tenho feito ao longe deste ano.

Se daqui a um ano tiver um discurso completamente distinto, é sinal de que tive sucesso nas minhas mudanças internas que ainda estão em curso.

(Um sincero obrigado à Andreia, porque se não fosse ela, eu não me lembraria do aniversário!)

quinta-feira, novembro 09, 2006

[83 / Surrounding Garbage]

Era uma vez, num qualquer local deste país, um conjunto de pessoas que numa determinada noite exercia uma actividade denominada de praxe. Todos as personagens e figurantes desta pequena história associariam uma outra palavra a esta noite: “baptismo”.
Uma das personagens que fugazmente é referida nesta história é uma das várias meninas e meninos vestidos de negro. Essa menina dirigiu-se desta forma à multidão de face colorida: “Caloiros, agora cada um de vocês vai ter com o padrinho ou madrinha que escolheram, entregam-lhe a prenda e voltam para os vossos sítios. Depois vão ser baptizados pelos respectivos padrinhos ou madrinhas”. A multidão dissolveu-se e voltou a reconstituir-se num intervalo de poucos minutos.
Os meninos vestidos de negro começaram a falar entre si. Estavam curiosos quanto à distribuição das opções feitas pela multidão.
Uma das meninas de negro de repente surgiu no campo visual de um dos meninos de negro. Ela dirigiu-se a ele com estas palavras: “Com quem é que ficaste?”. “Com a (censurado)”, respondeu ele.
Nesse momento a menina vestida de negro virou as costas ao menino de negro e disse para as suas amigas vestidas de negro, com uma voz desanimada: “Eu já sabia!!... Eu já sabia!!...”.
O menino vestido de negro, nesse momento fingiu que não ouviu e pôs-se a pensar que talvez a menina valorizasse uma das pessoas que compunham a multidão; ou então estava desiludida por não ter sido escolhida por ninguém. Era realmente embaraçoso para ela, caso isso fosse uma realidade.
(Esta pequena história omite agora certas passagens temporais que se traduzem em caminhadas até a uma determinada fonte situada num monte)
Chegadas as personagens e os figurantes ao local, separaram-se os membros da multidão colorida dos membros vestidos de negro. O objectivo? Proceder-se ao baptismo. Assim foi feito.
Durante o processo, o menino vestido de negro prestou particular atenção à menina desconsolada que sofrida e desgraçadamente teve de carregar o pesado e desprestigiante fardo de ter de baptizar não uma, não duas, mas três meninas coloridas. Coitadinha… Deve ser uma experiência horrível não ficar com quatro afilhadas…
O menino vestido de negro confirmou nesse preciso momento a dimensão da lata da menina vestida de negro. Para todo o sempre.
Fim