terça-feira, fevereiro 27, 2007

[97 / Our Self-Trapped Brains Which Tendencially Just Show The Superficial Part Of Themselves, Ending Up Meeting Repeatedly The World's Boredom]

Imagino-te. Sobrevalorizo-te. Idealizo-te. Sonho-te. Reforço-te. Enalteço-te. Profetizo-te.
Procuro-te.
Desencontro-te.

Não existes no meu mundo social. Não te sei ver. Não te sei ler. Não te sei.
Existes no meu mundo social? Então porque não te vejo? Porque te escondes? Porque não me conheces? Porque não tens acesso à minha essência? Porque sucumbimos ao terror da solidão emocional?
Não existes no meu mundo social. Apenas no meu mundo imaginário; naquele mundo em que as facilidades são uma constante e o festival rotineiro da proximidade física em contingência com a distância emocional é abolido impiedosamente; naquele mundo tão silencioso e intransmissível que facilmente se evapora quando sente a presença da curiosidade irresponsável do mundo externo.

Evaporo-te. Condensas-te. Quero solidificar-te. Gaseificas-te.
Ambos peões neste jogo da supressão do íntimo.
Um exercício de vazios.

Tento conformar-me à tua presença etérea frágil; à tua inexistência no mundo dos lábios que se tocam, dos olhos que se humidificam, das respirações que se aceleram, dos cérebros que se inundam de serotonina.

Não existes no meu campo visual. Ou será que existes?
Alcanço-te? Ignoro-te? Venero-te? Afasto-te?
Perguntas sem resposta.

Tens tanto para oferecer(-me). Será tão pouco o que verei.
O que verás de mim? O que verei de ti? Apenas o teu movimento: aquilo que o teu cérebro me irá mostrar; aquilo que irás ver de mim; aquilo que os nossos sistemas nervosos mostrarão ao mundo, ignorando as consequências nefastas de guardarem para si próprios a actividade mental que nos permitiria descobrir a beleza da nossa consistência.
Tanta actividade cerebral nobre posta em prática e no entanto apenas uma parte banal é deliberadamente exteriorizada.

Quando te encontrarei, cérebro sublime? Quando te mostrarás na tua globalidade?

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

[96 / Frustration #2]

Involuntariamente faço parte do grupo maioritário dos resultados deste referendo. Sim, fui forçado a integrar a percentagem da abstinência.
A indisponibilidade não-crucial dos meus pais para me transportarem de Braga a Viana (após um concerto cansativo que me impediu de me ajustar aos horários dos transportes públicos domingueiros) é algo que nunca esquecerei. Algo que não será facilmente desculpável. O embaraço é mais notório ainda, sendo eu um ex-estudante de Sociologia.
Espero que esta seja a única mancha no meu “currículo político” como cidadão activo no processo de mudança de uma população que gosta de criticar exaustivamente todas as coisas que observa e que aprecia a lentidão extrema da evolução das mentalidades neste canto geográfico.

Pelo menos ninguém me impediu de aplaudir e de sentir um arrepio de alegria quando vi que o “Sim” ganhou.
Queria tanto que o meu voto tivesse sido contabilizado...

[95 / Frustration #1]

Regresso de uma viagem cansativa. Fui ver o primeiro dos concertos dos Nine Inch Nails. A expectativa deu lugar a alguma desilusão. O concerto foi, na sua maioria, um exercício de restrição física e psicológica.

Vários são os motivos (exponho alguns deles):
_ a subversão das minhas expectativas quanto aos fãs; esperava deparar-me com maiores níveis de sensibilidade e sofisticação (fui brindado com fãs que acham natural ir assistir a um concerto de Nine Inch Nails enquanto envergam t-shirts de outros grupos musicais);

_ a agressividade pronta a ser posta em prática por algumas das pessoas que estavam no recinto (Não chegamos à primeira fila? Oh, daqui a bocado, quando isto começar e o R. começar a dar pontapés, chegamos à primeira fila e ninguém nos tira de lá!);

_ a fluidez com que nós (fantoches, ou “pigs”, tal como o Trent Reznor legitimamente nos chamou) nos movíamos involuntariamente ao sabor dos empurrões e crowdsurfing dos fãs mais “fuck it, I don’t give a shit”; a minha atenção tanto dava primazia ao concerto como ao meu próprio equilíbrio;

_ a impossibilidade quase permanente de observar o Trent durante uns dez segundos sem ter uma cabeça de alguém mais alto a bloquear-me o campo de visão (e eu estava na terceira fila em frente ao palco…);

_ serem tocadas demasiadas músicas que incentivavam o baixo limiar de euforia dos fãs mais expansivos (quanto mais barulho, melhor); a setlist poderia conter, a meu ver, músicas mais recentes e dignas de serem ouvidas em exibição ao vivo (houve pérolas que não foram incluídas; tinha previsto uma “Right Where It Belongs” mágica e intensa, mas ela nem sequer existiu naquela noite);

_ a beleza dos efeitos visuais presentes nos concertos americanos não marcou presença no concerto português.

Muito provavelmente algo nos unia a todos os que lá estávamos: a vivência presente ou passada de uma perturbação depressiva major e a aceitação do “conforto” que as letras e a música acabam por dar. Mas para além da grande probabilidade da existência desse aspecto comum, cada vez mais me convenço de que mais ninguém foi exactamente pelos mesmos outros motivos que eu.

Não sei até que ponto o Trent se sente representado por esta amostra de fãs que não se importa em dar um maior fôlego a quem gosta de entiquetar os estilos musicais… Porque aquilo a que eu assisti não foi a obra de um génio ser elevada até ao posto que lhe está reservado. O que eu vi foi uma reprodução ao vivo do rock que existe na memória de qualquer pessoa que já tenha assistido a um concerto desse estilo musical (nem que seja através dos media). E o Trent diz “I don't even like rock that much…”. Então porquê um concerto de rock? Havia tanto por onde escolher para a setlist. Porquê escolher o caminho mais fácil e mais despoletador de euforia nos fãs que o admiram por ser mais um facilitador de headbangs?
Talvez um dia venha a sabê-lo…

domingo, janeiro 28, 2007

[94 / From The Macro Apathy To The Micro Sublimity]

Sinto-me fascinado por saber que finalmente posso ventilar as minhas experiências internas.
Decapito a ideia de que a qualidade no seu estado puro é incongruente com a proximidade geográfica. Volto a ter esperança na minha geração.
Encontrei um sistema nervoso que reside nos píncaros da busca incessante pela realização! Que coerência! Que metodologia! Que competência! Que sensibilidade! Que nobreza!

Não costumo gostar de recorrer a citações (fazem-me sentir um mero reprodutor das palavras que alguém forjou, por muito que me reveja no conteúdo das palavras transcritas), mas acho que a pertinência do refrão desta música (cuja letra me representa a um nível de 99%) é gritante:

“I can feel so unsexy for someone so beautiful/
So unloved for someone so fine/
I can feel so boring for someone so interesting/
So ignorant for someone of sound mind”
.
(Alanis Morissette, “So Unsexy”)

sábado, janeiro 20, 2007

[93 / Crash]

A batalha entre o interno e o externo parece não ter fim.
Por muito que nos esforcemos por ser melhores pessoas, a intensidade com que exercitamos o pensamento quase nunca é assinalável aos olhos dos outros. O conteúdo das nossas ideias nunca transparece para o exterior, a não ser que façamos algo que realmente seja observável.
Não poder ser transparente quanto aos meus pensamentos é algo que me incomoda. De certa forma acabo por reproduzir o padrão sufocante da superficialidade das relações sociais que com tanta destreza nos entorpecem e nos limitam o acesso à felicidade. Tenho pena por ainda não saber destruir essa limitação. Acho que é claramente um dos aspectos que tenho de trabalhar nos próximos tempos. Mas ao mesmo tempo torna-se difícil. Há dias em que ainda me parece Natal, mas o desânimo vem quando me cruzo com as caras que a minha memória reconhece e me indica que devo retribuir o cumprimento e o sorriso formal enquanto os meus pés continuam a levar-me até ao caminho que tinha traçado previamente. Os outros não notam absolutamente diferença nenhuma em nós nesse momento particular.
Penso nesta questão porque há poucos dias aconteceu-me algo de inédito enquanto estava numa fila de uma cantina universitária. Seríamos quatro pessoas a partilhar a mesma mesa naquele jantar. Por diversos motivos acabámos por inserir-nos na fila heterogeneamente. Pego no tabuleiro e no resguardo. A fila avança. Nos talheres. Avanço. No pão. Avanço. Na mousse de chocolate. Avanço. Encho o copo com sumo de laranja. Chegam à fila as duas últimas pessoas que partilhariam o jantar comigo. Constatavam que como já não nos viam na fila, teríamos já indo para a mesa. Uma delas referiu “O J. deve estar com tanta fome que já subiu. E o outro?”. Eu era o outro. Numa questão de segundos a minha existência era reduzida à insignificância de alguém sem nome. Não tinha a dignidade de ter uma associação a algo de palpável. Era feito de uma consistência efémera e irrelevante. E foi então que pensei nesta questão da invisibilidade do peso dos pensamentos que me percorrem o cérebro. No quão frágeis eles são. No quão débeis são, por não terem a capacidade de se transporem para o mundo que partilho com a humanidade que me rodeia. A convicção, as ideias, o turbilhão que apenas invade um único ser humano. Um único ser humano. No quão fácil é falar levemente sobre selves alheios, sem haver noção do funcionamento interno deles. No desrespeito.
Estes pensamentos prolongar-se-iam durante mais alguns segundos, mas aconteceu o impensável. Desbloqueei-me ao ver que o meu tabuleiro se movia, deixando-se levar pela verticalidade. As minhas expectativas das leis da Física estavam a ser violadas. Não ouvia som. Parecia que aquilo não estava a acontecer. Mas estava. Confirmei isso enquanto observava imóvel a trajectória do tabuleiro até atingir o chão e fazer um estrondo. Os pés das pessoas que estavam ao meu lado deram um salto e viraram-se para o tabuleiro. Na minha mão ainda permanecia o copo. Intacto. Nem uma gota de sumo desperdiçada. Apenas a mousse de chocolate teve como destino ser limpa por uma funcionária de olhar cúmplice em vez de ser ingerida por mim.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

[92 / Auto-Pilot]

Há (muitos) momentos em que gostava que os meus dedos fossem conduzidos por forças invisíveis e me fizessem carregar nas teclas que me levassem ao lugar mais relevante de toda a Internet.

domingo, janeiro 14, 2007

[91 / Interesting]

Nunca o conceito empírico de pre-committment tinha feito tanto sentido. A sua aplicação ao mundo quotidiano é realmente poderosa.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

[90 / Music To My Ears]

Novo objectivo: ter aulas de Filosofia da Existência.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

[89 / Poignancy (or) Releasing The Tormenting Ghosts]

“How to stay paralyzed by fear of abandonment?/
How to keep people at arms length and never get too close?/
How to mistrust the ones you supposedly love the most?/
How to pretend you’re fine and don’t need help from anyone?/
How to feel worthless unless you're serving or helping someone?/
How to keep smiling when you’re thinking of killing yourself?”

(Alanis Morissette, “Eight Easy Steps”)

Posso personalizar, Alanis?

Como apresentar Distimia, Perturbação Depressiva Major, Perturbação Aguda de Stress e Perturbação de Stress Pós-Traumático no currículo psicopatológico de uma história de vida relativamente jovem?
Como começar a pensar que na vida parece haver um equilíbrio (o tempo passado em momentos felizes será contrabalanceado com momentos infelizes de maior intensidade e duração)?
Como pensar erradamente que num cérebro a Distimia será a única perturbação em remissão completa?
Como ser um caso clínico de comorbilidade?
Como ser abandonado pela resiliência?
Como ouvir as mais corrosivas palavras de sempre?
Como constatar que essas palavras são de facto dirigidas a alguém que vemos constantemente em qualquer espelho?
Como associar essas palavras a uma pessoa completamente satisfeita com o impacto negativo que provoca?
Como ver a auto-imagem degradar-se numa questão de segundos?
Como sentir que se morre sentado numa cadeira de uma sala universitária enquanto se passam apontamentos a limpo?
Como sentir o coração a bater desenfreadamente devido à humilhação pública?
Como reparar que nesses momentos a tarefa de passar apontamentos com letra legível se torna impossível?
Como querer fugir daquele local?
Como permanecer sentado enquanto se ponderam os prós e contras das opções de não reagir, reagir com violência ou desaparecer?
Como pensar que a partir dali nunca mais se será a mesma pessoa?
Como reparar que as palavras corrosivas são partilhadas por outras pessoas, talvez devido aos processos de grupo?
Como permanecer fisicamente numa sala de aula, apesar do cérebro estar bem longe dali?
Como escrever “FALLING DOWN” num caderno preenchido por teorias sociológicas e ter uma amiga a perguntar o motivo para a redacção dessas palavras, não obtendo uma resposta conclusiva?
Como não saber se o regresso a casa é bom ou mau sinal?
Como chegar a casa, trancar-se na casa de banho e chorar ao som da música mais negativa que se consegue encontrar nesse momento?
Como não querer enfrentar o mundo no dia seguinte?
Como não conseguir deixar de pensar na escuridão que o futuro reserva?
Como querer escrever alguma coisa, independentemente do seu nexo, de modo a aliviar por breves instantes o sofrimento indescritível que se experiencia?
Como reparar na eficácia brilhante de se despoletar silenciosamente auto-destruição noutro ser humano?
Como relembrar a frase de um filósofo “toda a gente procura o bem-estar; mas e se eu não o quiser?” ouvida numa aula e aplicá-la à motivação cruel da autora das palavras corrosivas?
Como não conseguir esquecer a existência da pessoa responsável pelo surgimento dos pensamentos intrusivos, tendo a noção de que ela provavelmente já nem se lembraria naquele momento que a vítima ainda permanecia neste mundo?
Como tentar prever se o dia seguinte traria novos ataques psicológicos?
Como sentir que se está na corda bamba por não imaginar que se podia experienciar algo tão devastador?
Como não aguentar a pressão e ir à varanda avaliar a altura que a separava do chão?
Como respirar fundo enquanto se tenta processar um turbilhão de pensamentos?
Como precisar urgentemente de ajuda sem que ninguém o saiba?
Como afastar-se da varanda por se receber uma mensagem de uma amiga perspicaz a perguntar se está tudo bem, e responder-lhe que sim?
Como tomar a decisão de estabelecer uma meta de um mês de vida até voltar a reavaliar-se os desenvolvimentos dos episódios após esse dia?
Como voltar à casa de banho para chorar novamente?
Como permanecer lá dentro até ser hora de jantar, sair e ir sentar-se num sofá para se ir comer ao lado de um colega, disfarçando um sorriso enquanto se tenta ao máximo procurar distracções nas imagens exibidas pela televisão?
Como levar a primeira garfada à boca e sentir um vómito causado pelos nervos incontroláveis?
Como voltar ao refúgio da casa de banho?
Como sentir tremuras, abanões e náuseas?
Como tentar adormecer-se e não se conseguir fazê-lo?
Como mandar uma mensagem desesperada a um amigo e receber um relatório pendente?
Como pensar que não existe nada mais com relevância suficiente para libertar o cérebro dos pensamentos de auto-destruição?
Como não aguentar o silêncio nocturno e voltar a ligar a música até finalmente, ao fim de algumas horas, se adormecer?
Como acordar-se cedo demais no dia seguinte?
Como obter a confirmação de que nunca antes se tinha sentido tão vivamente o desmoronar da segurança do mundo dos sonhos e se acorda para o realismo intenso de um pesadelo?
Como caminhar até à universidade e esperar pela possibilidade da reexperienciação da humilhação sentado num banco à porta da sala de aula?
Como constatar com alívio que as pessoas envolvidas no acto de humilhação não comparecem na aula?
Como imaginar o sorriso sádico feminino que espera pacientemente para se manifestar no momento do primeiro reencontro?
Como sentir ódio e repúdio puro por parte de outro ser humano(?)?
Como perder grande parte das memórias do resto desse segundo dia, sexta-feira?
Como voltar à terra natal com a noção exacta de que nada mais faz sentido e que não se quer abandoná-la, mesmo que isso implique o sacrifício da ascensão profissional?
Como alegar cansaço quando umas das primeiras frases proferidas por uma mãe são “Que se passa? Sentes-te bem?”?
Como querer jantar com os pais e voltar a sentir vómitos?
Como ir para o quarto e saber que uma conversa urgente tida com o amigo da mensagem pendente é a única coisa que estagna a descrição do episódio traumático na presença dos pais?
Como saber que a realização dessa conversa iria desestabilizar permanentemente a coerência familiar?
Como pensar que o amigo específico será a única tábua de salvação possível, desabafar com ele, e vê-lo na melhor das suas intenções a recorrer à sabedoria popular da inutilidade do “tens de esquecer isso”?
Como constatar que se está envolvido neste sofrimento sozinho?
Como vir a saber meses mais tarde, que aqueles precisos dias traumáticos para a vítima foram dos melhores da vida desse amigo, por coincidirem com o início de uma relação íntima relativamente longa?
Como voltar a pensar nas frases “deixa lá isso/tens de esquecer isso” com ironia?
Como lidar com a ideia de que um pedido de ajuda explícito foi substituído por actividades de teor bem mais interessante?
Como achar que esta discrepância de vivências é tremendamente injusta?
Como não poder falar dos pormenores do evento traumático a mais ninguém?
Como passar a desconfiar das pessoas que dão sinais de ter uma atitude semelhante perante um pedido sincero de ajuda?
Como sentir que se caiu num buraco escuro de onde ninguém obtém ajuda para sair de lá?
Como tocar no fundo dos abismos e constatar que o seu chão é feito de areias movediças esfomeadas?
Como saber com desespero renovado que claramente não se esquece algo atormentador, e que o trauma poderá voltar a surgir novamente através de diversas formas inventadas pela dona do sorriso sádico?
Como pensar que provavelmente a repetição do episódio humilhante em frente a outros amigos, seria uma fonte inesgotável de prazer por parte dos perpetradores do episódio traumatizante?
Como bloquear com pensamentos deste cariz?
Como sucumbir perante a impotência e o terror?
Como constatar que os medos se podem tornar numa realidade observável?
Como abandonar a terra natal e voltar para junto da boca do lobo, numa segunda-feira fingindo que tudo está bem?
Como tremer ao saber da proximidade física dos carrascos?
Como vir munido de ajuda sonora e querer permanecer em casa o máximo de tempo possível, enquanto se gritam músicas de teor negativo existencialista?
Como sentir partilha do sofrimento reproduzindo as palavras do conteúdo musical, enquanto se está no chão a reexperienciar cognitivamente o momento traumático?
Como permanecer sentado numa banheira com a água quente ligada durante mais de uma hora e sentir-se morto?
Como misturar essa água quente com água salgada e sofrida?
Como sentir que há problemas que têm apenas uma solução irreversível, que culmina nas estatísticas de várias instituições públicas?
Como querer que a morte chegue depressa?
Como desejar ardentemente possuir uma arma e reproduzir um dos mediáticos massacres académicos americanos, mesmo que depois surja a etiquetagem errada de psicopatia?
Como sonhar com as várias formas de tortura, de modo a poder-se aplicá-las em prol do estabelecimento de algum sentido de justiça?
Como tentar pensar em maneiras de induzir o mesmo sofrimento psicológico nas personagens responsáveis pelo episódio traumático, para que pudessem ser brindadas também com o sabor da crueldade humana?
Como abandonar essas cognições e incutir no pensamento que a forma de vingança se limitará à dignidade de uma espera indeterminada até que a aleatoriedade da morte permita proceder-se à cuspidela no jazigo da dona do sorriso sádico (caso a longevidade seja maior para o caso da vítima)?
Como aguentar o pesadelo mórbido destes sintomas durante os intermináveis dias que compõem seis meses?
Como recuperar mnesicamente apenas os momentos em que houve novas humilhações por parte das mesmas pessoas?
Como perder a traquilidade quando se observa a personagem do sorriso sádico?
Como tremer por escrever este post?
Como querer apagar da memória o fatídico dia de 24 de Março de 2004?
Como voltar a reexperienciar alguns destes sintomas, anos mais tarde, por um período mais curto de tempo, e por razões diferentes, numa fase sazonal balnear na qual toda a gente parece aproveitar a ausência de trabalho para arriscar ser feliz?
Como não encontrar resposta à questão “o que é que eu fiz para ter de passar por isto?”?
Como sentir que se compreende demasiadamente bem o sofrimento de qualquer pessoa com uma depressão verídica e grave?
Como achar que ler um episódio de vida é TÃO mais fácil do que experienciá-lo?

“I've been doing research for years/
I've been practicing my ass off/
I've been training my whole life for this moment, I swear to you/
Culminating just to be this well-versed leader before you.

I’ll teach you all this in eight easy steps/
A course of a lifetime, you’ll never forget/
I'll show you how to in eight easy steps/
I'll show you how leadership looks when taught by the best.”
(Alanis Morissette, “Eight Easy Steps”)

As inscrições encontram-se abertas; serão tidos em conta os processos de grupo que possam advir por parte da dinâmica dos inscritos.

terça-feira, dezembro 12, 2006

[88 / Love Calculator (Because It All Lies Down On Statistics)]

Pensava que tinha recebido mais um daqueles e-mails que pediam para que o reenvio fosse feito para vinte pessoas, caso contrário não receberia mil vales de desconto em hipermercados Lidl… Estava enganado. Pela primeira vez conseguiram com que eu fizesse publicidade a um site proveniente de um e-mail. Provavelmente será a única.


(Because it all lies down on statistics)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

[87 / Shine, As If It Was Truly Coming From You]

Não é muito difícil saber se uma pessoa orgulhosa ficou a pensar nas palavras que uma vez lhe expus, apesar de ter permanecido inexpressiva durante esse momento argumentativo.
Ela é facilmente apanhada a reproduzir exactamente as mesmas palavras que previamente lhe disse, como se fossem da sua autoria.

sábado, novembro 25, 2006

[86 / The Insightful Chat]

Esta foi certamente uma das conversas mais ricas que já tive através do MSN. Ela abordou temas bastante pessoais, mas há algo nela de divulgável: o insight que ela me fez ter.
Como editor desta "filtragem", achei pertinente omitir certas passagens de diálogos sobre temas mais intimistas.

"Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
we are all stuck with this human condition
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and the reality is
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
in 200 years from now
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
the world will be different
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
but the people...
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
they will be going through the same thing as we are
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and spend their whole lives thinking.
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
2000 years ago
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
I am sure people spend their whole lives thinking
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
the world does get smarter technology wise and stuff
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
but emotionally
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
we all start from zero
[The Nacissistic Blurred Photograph I Decided To Post Because Of The Funny Expression It Captures] diz:
yeah.... it remains the same
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
it would be great if people could learn from generations before
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and be wiser emotionally as we are with science
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
because science can be passed down
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
but the human condition can’t
(…)
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
so right now
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
we as everyone else are diseased with the human condition
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
I guess it's not a bad thing
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
but we need to learn to deal with it
(…)
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and Oprah said and I think I agree is that people are reborn at 50
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
that's when people really know themselves
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
they know what they want
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and there is no other way but to get there
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
only with time
(…)
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
but I am not saying anything conclusive now
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
because
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
I am sure in 5 years from now
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
we will look back
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and we will be 5 years wiser
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and know something we don’t know today
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
and we might think we have the answer then
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
but then 5 years after that...
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
we will look back…
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
it never ends
(…)
Life is what happens to you while you're busy making other plans...I want to live! diz:
I guess it ends with death"

quarta-feira, novembro 15, 2006

[85 / 21 Things I Also Want In A Lover]

Já que não tem havido um único nome a invadir o meu “departamento emocional íntimo” há alguns meses, talvez não seja má ideia usar este meio para fazer umas filtragens.
A Alanis Morissette escreveu a letra da música “21 Things I Want In A Lover”.

Acho pertinente considerar a minha versão (não sobreposta à da Alanis, mas sim complementar).

Are you visionary?
Are you good at observing others?
Do you often feel the warmth on your brain when you’re engaged in truly deep thoughts?
Do you feel the majority of other people tend to be superficial even when they want to be seriously responsible?
Do you see beyond the phenotype (outfit and looks)?
Do you expand yourself by liberating your thoughts from narrow-minded cultural points of view?
Are you sensitive, competent and reliable?
Do you not steal others’ chances to be heard?
Do you reinforce discreetly those who are really crawling for it, rather than to point it as their flaw before the reinforcement is given?
Do you not mind exposing your pure thoughts even if there is a risk of them being labelled as ridiculous in front of the blind and unsharped minds, believing that someone else in the crowd will be noticing the sublimity of your acts?
Do you feel you can be the safety rope of someone with special qualities (won’t you let that someone down when you know you’re truly needed?)?
Do you respect other points of view and motivations, as long as they’re harmless to the population?
Are you on your way for your plausible internal workings to be widespread?
Do you have a baggage of justified extreme emotions?
Are you afraid of common sense?
Are you adaptable to different relevant contexts?
Are you mentally challenging?
Do you like to explore fruitful minds because you know you can actually learn precious teachings from it?
Do you feel your uniqueness is not understood?
Are you open-minded and experimental?
Haven’t you felt any difficulties at all fitting these 20 aspects (I’m a bit tired of those who fit everything perfectly but just on the surface)?

segunda-feira, novembro 13, 2006

[84 / One]

Tão diferente é o meu estado actual...
Um ano, do qual pouca foi a relevância das experiências vividas. Daquelas experiências que realmente são positivas e me fazem sorrir, relembrando-as agora sem a interferência subjectiva da proximidade temporal.
Nadar em seco. Sim, é isso o que tenho feito ao longe deste ano.

Se daqui a um ano tiver um discurso completamente distinto, é sinal de que tive sucesso nas minhas mudanças internas que ainda estão em curso.

(Um sincero obrigado à Andreia, porque se não fosse ela, eu não me lembraria do aniversário!)

quinta-feira, novembro 09, 2006

[83 / Surrounding Garbage]

Era uma vez, num qualquer local deste país, um conjunto de pessoas que numa determinada noite exercia uma actividade denominada de praxe. Todos as personagens e figurantes desta pequena história associariam uma outra palavra a esta noite: “baptismo”.
Uma das personagens que fugazmente é referida nesta história é uma das várias meninas e meninos vestidos de negro. Essa menina dirigiu-se desta forma à multidão de face colorida: “Caloiros, agora cada um de vocês vai ter com o padrinho ou madrinha que escolheram, entregam-lhe a prenda e voltam para os vossos sítios. Depois vão ser baptizados pelos respectivos padrinhos ou madrinhas”. A multidão dissolveu-se e voltou a reconstituir-se num intervalo de poucos minutos.
Os meninos vestidos de negro começaram a falar entre si. Estavam curiosos quanto à distribuição das opções feitas pela multidão.
Uma das meninas de negro de repente surgiu no campo visual de um dos meninos de negro. Ela dirigiu-se a ele com estas palavras: “Com quem é que ficaste?”. “Com a (censurado)”, respondeu ele.
Nesse momento a menina vestida de negro virou as costas ao menino de negro e disse para as suas amigas vestidas de negro, com uma voz desanimada: “Eu já sabia!!... Eu já sabia!!...”.
O menino vestido de negro, nesse momento fingiu que não ouviu e pôs-se a pensar que talvez a menina valorizasse uma das pessoas que compunham a multidão; ou então estava desiludida por não ter sido escolhida por ninguém. Era realmente embaraçoso para ela, caso isso fosse uma realidade.
(Esta pequena história omite agora certas passagens temporais que se traduzem em caminhadas até a uma determinada fonte situada num monte)
Chegadas as personagens e os figurantes ao local, separaram-se os membros da multidão colorida dos membros vestidos de negro. O objectivo? Proceder-se ao baptismo. Assim foi feito.
Durante o processo, o menino vestido de negro prestou particular atenção à menina desconsolada que sofrida e desgraçadamente teve de carregar o pesado e desprestigiante fardo de ter de baptizar não uma, não duas, mas três meninas coloridas. Coitadinha… Deve ser uma experiência horrível não ficar com quatro afilhadas…
O menino vestido de negro confirmou nesse preciso momento a dimensão da lata da menina vestida de negro. Para todo o sempre.
Fim

terça-feira, outubro 31, 2006

[82 / Oh, Really?]

Numa aula relativamente recente ouvi uma colega de curso desabafar a uma amiga em baixo volume que "já passei por más experiências que não desejo ao meu pior inimigo”.
Sorri ao ouvir aquilo.
Sorri, não de felicidade. Sorri, confesso, de uma leve ironia. Não é que não respeite o sofrimento que ela alega ter passado (e que eu não faço ideia de qual a especificidade contextual que o despoletou). Qualquer sofrimento merece o seu respeito.
A minha falta de apreço pela afirmação deve-se ao facto de ela provir de alguém cujo comportamento é incompatível com o conteúdo das palavras que proferiu. Alguém que não age na maioria das vezes com conscienciosidade social não revela grande respeito pelos outros. Alguém que interrompe sistematicamente conversas recorrendo a um maior número de décibeis, arrisca-se a decapitar a reputação silenciosa que lhe tenho confiado até àquele momento. Alguém que claramente avança e pára em frente a outra pessoa que já lá estava, dando-lhe o privilégio de ver as suas costas ao pormenor, desilude qualquer vítima (oh, quantas vezes isso se vê em grupos que dançam nos bares e que de repente se fecham à frente dos outros num abrir e fechar de olhos, e oh, que costas lindas, e oh, quantas vezes se dá um passo em frente para a reinserção, e oh, o fenómeno volta a ocorrer momentos mais tarde, e oh, há sempre um pequeno grupo fixo de pessoas a quem isto nunca acontece, e oh, isto não ocorre apenas debaixo de tectos musicais, e oh, o que estará a pessoa prejudicada a pensar nesses precisos momentos?).
Sobrevalorizam-se as pessoas que se manifestam exaustivamente. As que se auto-promovem sem fundamento aparente. As socialmente atenciosas e simpáticas (o reforço pode espreitar a qualquer esquina, não é verdade?). As que adquirem o sorriso plástico pronto a ser exibido em qualquer ocasião. As que retiram esse mesmo sorriso quando já não está por perto alguém a quem lhes interessa passar a imagem de que conhecem metade dos habitantes deste mundo. As que absorvem ilegitimamente as atenções. As que fazem sentir que os outros são um marasmo. As que manipulam as actividades ao sabor dos seus caprichos. As que vêem as suas vontades efémeras serem temporariamente saciadas pelos outros. As visivelmente dinâmicas. Seja lá o que isso for. Independentementemente da produtividade oca que isso fornece ao mundo. Porque aparentemente o mundo não sobrevive sem espectáculo.

Como se estas palavras fossem mudar alguma coisa...

Como se a minha opinião silenciosa interessasse...

terça-feira, outubro 24, 2006

[81 / Self-Inflicted Sabotage]

Idealização
Seria uma apresentação rápida e simples. Não valia a pena haver pensamentos exagerados. Toda a preocupação mínima acerca dela deveria ser rotulada de excessiva, até porque o peso deste exercício de comunicação seria nulo na avaliação da cadeira.
Pouco tempo levou até se encontrar o material mais adequado para ser divulgado, indo de acordo com os padrões temáticos sugeridos pela docente.
Tinha sido fácil, em grupo, escrever todos os argumentos que dariam sentido às palavras proferidas pelo porta-voz do grupo; esse porta-voz que eu conheço como ninguém, de tantos anos viver dentro da sua pele. Perspicazmente se tinham apagado as pequenas lacunas que surgiam à medida que se confrontavam ideias entre os membros do grupo. Tudo estava pronto para ser divulgado aos cérebros que se encontrariam naquela precisa aula.
Entraria na aula sem pensar nos minutos iminentes nos quais teria todas as atenções dirigidas para mim. No momento indicado, levantar-me-ia da minha cadeira, iria para perto do quadro, mostraria o filme escolhido pelo grupo de trabalho, falaria calma e perceptivelmente para as pessoas, escolhendo as palavras indicadas, e não sentindo nervosismo. Responderia a possíveis perguntas formuladas pela docente. Voltaria ao meu lugar e sentar-me-ia, dando vez ao grupo seguinte.


Realidade
A componente teórica dessa aula prolongou-se para além do previsto, pelo que apenas os grupos que não escolheram programas de prevenção em saúde mental em formato electrónico os apresentariam nessa aula. O meu grupo, tal como já referi, tinha optado por um filme retirado da internet.
A minha apresentação passou automaticamente para a semana seguinte. Foi pena... Já estava mentalizado para fazer a apresentação nesse dia…
A semana passou.
Cheguei atrasado à aula. Quando surgiu o momento de ir apresentar, não encontrava no meu caderno os argumentos redigidos. Uma colega do grupo perguntou-me se preferia levar o caderno dela (aberto prontamente na página em que ela os tinha escrito). Não me iria sentir confortável por ter de decifrar as palavras da caligrafia dela (não é que fosse uma caligrafia discrepante da minha, mas seria necessário debruçar-me durante mais tempo sobre o caderno dela em plena apresentação) e a disposição com que espalhou as frases.
Outro grupo ofereceu-se para apresentar o seu trabalho nesta vaga temporal. Pude então procurar menos sofregamente pelas páginas do meu caderno o precioso conteúdo que parecia ser invisível nesse momento. Encontrei o que queria. Esperei pela minha vez, caindo no erro de focar a minha atenção na apresentação do grupo actual.
Surgiu o momento de me levantar e ir para perto do quadro. O nosso pequeno filme sobre prevenção da violência doméstica foi divulgado. Teve boa aceitação por parte de quem o viu dentro daquelas quatro paredes. Houve mesmo suspiros de indignação face às estatísticas brutais que eram apresentadas.
O filme termina. A minha comunicação inicia-se.
Que discrepância... Rapidamente me apercebo que me começo a afundar nas palavras erradas com que começo as frases. Não me consigo lembrar dos argumentos que tinha escrito no caderno (algo que naturalmente ocorre a qualquer pessoa que não relê, ao fim de uma semana, as palavras que era suposto ter praticamente decorado e exercitado previamente). O nervosismo é evidente. Passo a ser o actor numa peça de teatro em que o público fica com a sensação de que ele não estudou convenientemente o seu papel. Os holofotes iluminam-no. O início da frase é proferida. Surge uma pausa inesperada. O silêncio põe a descoberto a expectativa do público face às palavras do desamparado actor. Os meus olhos cravam-se no caderno. Tento ver rapidamente as palavras escritas. O ponto sussura-lhe as deixas, mas nem assim ele consegue improvisar. Precisa de ouvir as frases na sua totalidade. Limito-me a ler o que tenho escrito no caderno, inserindo pontualmente umas palavras diferentes. Fico com a sensação de que me repito, porque no início da apresentação divaguei, tentando dizer aquilo que me lembrava remotamente do que tinha escrito no caderno. O nervosismo do actor é bastante evidente para o público. A cena demora o seu tempo até acabar, mas o desejado final acaba por vir. Leio as palavras até ao fim. Não surgem perguntas da parte da docente: alívio sentido por mim, associado a um estranho sentimento de injusto facilitismo. O meu nervosismo deve ter sido tão notório que a docente preferiu não me questionar absolutamente nada acerca do modo como o meu grupo encontrou aquela informação. Foi o único grupo a não ser confrontado com questões.
Sentei-me no meu lugar acompanhado de uma sensação de falhanço.


Porque não consigo veicular oralmente as minhas ideias do mesmo modo que o faço através da escrita? Porque fico preso à noção de que tudo o que eu digo em directo está a ser avaliado pelo público? Porque sinto que é avaliado aquilo que digo, e a forma como o digo? Porque me sinto refém deste tipo de avaliação social? Porque não sou uma daquelas pessoas que fala com convicção inabalável em apresentações deste cariz?

quarta-feira, outubro 18, 2006

[80 / Possess Me Eternally, Miss]

Finalmente sinto a tua presença. O tempo passou sem que eu te pudesse reencontrar. Procurei-te afincadamente, mas fui impedida de te descobrir. A tua outra metade (sim, a negativa) barrou-me o caminho e impediu-te de regressar à superfície. Mas agora voltaste a mostrar a tua outra face. Trepaste incansavelmente. Faço uma vénia ao teu esforço heróico. Ao sucesso da tua sobrevivência. Encontrei-te e não quero voltar a perder-te.
Passou algum tempo desde a última vez que nos vimos. Deixa-me olhar-te de frente. Ver esses olhos que conheci tão bem. Ver a tua cara que me tem sido familiar nestes últimos anos. Reconheço essa imagem: está igual àquela a que me habituei. Quero tocar-te. Dar-te o abraço que não se vê mas apenas se sente. Não me vês mas sentes e agradeces a minha presença. Sinto-me grata por poder estar contigo de novo.
Quero ver-te na globalidade. Quero entrar no teu interior. Avaliar o teu estado mental. Deixas-me? Não me ouves. Vou fazê-lo na mesma. Serei uma legítima intrusa do teu íntimo. Sei que não te importas. Também estou consciente de que infelizmente não sou a primeira a fazê-lo. Vou aceder delicadamente ao teu cérebro.
Mas... Que negatividade brutal é esta? Que conteúdo mórbido é esse nos teus pensamentos? Que mazelas irreversíveis apresentas? Por que razão estás diferente? Os teus níveis de libertação de neurotransmissores estão diferentes... O teu cérebro está claramente bem desenvolvido nas secções responsáveis pelas emoções negativas. Elas têm sido notoriamente exercitadas recentemente durante a maior parte dos dias. Sim, estão preparadas para entrarem de novo em acção. O caminho está aberto para isso.
Porque me sinto preocupada apesar de estar presente? Presumo que a estabilidade da minha proximidade é ténue. Não, não pode ser. Não te quero voltar a perder. Tenho medo que desapareças por um tempo indeterminado e preocupante. O que despoletará o regresso forçado da minha ausência?
O abraço que te dou não é suficiente. Tento agarrar-te ferozmente. Encubro-te. Camuflo-te. Tenho-te seguro. Estou a proteger-te. Agradeço a parte dos teus mecanismos mentais que me têm ajudado nesta tarefa. Eles ampliam o meu alcance. Estou aqui. Quero continuar aqui. Precisas de mim. Deixas de pensar em sobrevivência quando sentes que estou a vigiar-te e a tocar-te. Procuras desesperadamente falar comigo. Queres-me como teu vínculo permanente.
Mas és escorregadio. Deslizarás pelas minhas mãos caso haja um abalo considerável. Voltarás a cair naquele buraco escuro, largo e profundo onde mora o desconsolo humano. Voltarás a estatelar-te. Quero evitar isso a todo o custo. A nova queda poderá ser fatal. Grito-te. Imploro-te que não me abandones. Aprisiono-te, mas as correntes são quebradiças. Tento desviar a tua atenção dos estímulos externos agressivos.
Que rudimentar é a minha intervenção... Apenas posso contar com a tua força interior e isso faz-me sentir impotente...
Envergonho-me da minha intermitência. Sinto culpa de cada vez que te vês forçado a seguir os trilhos que não queres pisar. Ponho em causa a minha dignidade quando me apercebo que os teus medos se tornam reais, um a um, e te consomem lenta e dolorosamente...
Há tantos como tu... Não fazes ideia de quantos são ou quão próximos de ti estão... Tantos os que gritam pela minha presença mas eu não os consigo resgatar...
Sinto-me ofuscada pela escuridão do terror que te quer envolver. É difícil travar os intermináveis combates. Somos forças antagónicas de igual envergadura. Continuo a lutar pelo reconhecimento global do meu nome. Este nome inalcançável para muitos...
Eu. Dificilmente eu: resiliência.

sábado, outubro 14, 2006

[79 / Weak Connections]

Cada vez mais ponho em evidência mental os conceitos de “equifinalidade” e “multifinalidade”. Sim... Bertalanffy criou uma daquelas teorias que eu pensava que eram apenas para decorar, mas que acabou por se tornar involuntariamente numa ferramenta útil para a minha habitual avaliação do quotidiano: um pequeno mas importante desporto a que recorro. Uma actividade que pode ser muito perigosa e auto-destrutiva por vezes. Desconheço ainda as regras pela qual ela se rege.
Houve uma altura na minha vida em que comecei a pensar que talvez houvesse certos momentos em que as pessoas exagerassem aquilo que realmente sentiam. O motivo para o fazerem? Não o sabia. Ainda hoje não o sei. Cada qual terá as suas razões secretas para o fazer.
O que despoletou em mim esse pensamento foi um intercâmbio que tive com uma turma de uma escola secundária nacional. Na primeira fase dele, a minha turma foi morar durante três ou quatro dias nas casas dos alunos da outra turma. Repito: três ou quatro dias, numa cidade diferente e relativamente distante, em que as únicas caras familiares são as que se vêem sempre que as actividades lectivas englobavam as duas turmas. Após esse tempo, cada um de nós estaria a cargo do aluno responsável por nos alojar.
Para mim esses dias foram extremamente desgastantes e deprimentes. Ansiava pelo regresso a casa, onde me esperava o conforto da rotina que gostava de ter na altura. O mesmo não se passou com outras pessoas da turma. Ao fim desses três ou quatro dias, alguns deles tiveram a necessidade de mostrar ao mundo as lágrimas que a despedida lhes trazia.
Acredito que talvez num ou noutro caso as lágrimas se tenham devido a paixões fracas que a distância se encarregaria de dissolver mais tarde. Repito: num ou noutro caso. Não na maioria dos casos. Então porquê de tudo isto? Porquê fingir uma ligação forte inexistente? Não havia ali alívio por se voltar a casa? Todos nós sabíamos que não nasceriam grandes frutos daquela experiência.
Que razões pessoais levaram àquela equifinalidade: vários motivos levaram ao mesmo resultado de choro e tristeza superficial.
Porque está disseminado este fenómeno? Não me refiro a casos de intercâmbio, mas sim à superficialidade de certos comportamentos. Por que razão o repetimos em variados contextos?

segunda-feira, outubro 09, 2006

[78 / Statistics]

Durante um banho, ao som de música que pode ser considerada pesada (não vejo nada de pesado em letras negras e realistas):

- percentagem de pensamentos positivos: 5%.
- percentagem de pensamentos negativos: 95%.