sexta-feira, junho 30, 2006

[64 / Looking To The Outside]

Dois textos de leitura crucial, acerca das "almas gémeas": este e este.
Gostei particularmente do apelo implícito que faz a cada um de nós: termos a noção de que numa relação somos respeitados (mesmo pelos nossos defeitos), logo não se devem exigir características impossíveis à outra pessoa.

quinta-feira, junho 29, 2006

[63 / Reincarnation]

Depois de um bom filme fico sempre com aquela sensação estranha de que sou forçado a voltar a viver a minha vida. Uma vida que não tem nada de fascinante quando comparada ao magnetismo daquelas que observei. É sempre a pior parte de qualquer bom filme.
Sentir-me tocado pela história que decorre em frente aos meus olhos e esquecer por minutos a pessoa que sou, o local onde me encontro, as fraquezas e qualidades que possuo, ...
O impacto do regresso a mim é fortíssimo.

segunda-feira, junho 19, 2006

[60 / “I’m So Sorry”]

Dia 1
O dia parecia ter chegado ao fim, mas ele não sabia o que o esperava nos minutos finais.
Desconhecia que naquela noite ele iria experienciar o verdadeiro poder de um chat.
Assim foi. No decorrer da conversa, não só sentiu atracção física pela imagem que recebeu, como também se sentiu intrigado por saber que ambos estudavam no mesmo estabelecimento de ensino. Apesar de tudo, a verdade é que esse estabelecimento comportava milhares de estudantes, sendo natural que nem ele nem ela se reconheceram.
Começaram a encontrar pequenas diferenças; acharam piada a outras semelhanças; quiseram continuar a conversa no dia seguinte.

Dia 2
A meio da conversa que lhes estava a permitir conhecer mais pormenores sobre cada um deles, ela irrompe com a frase “ontem estive a pensar e acho que te tenho de contar a verdade, senão depois arrependo-me”.
Ele ficou curioso e perguntou-lhe o que é que ela lhe tinha para contar. A desilusão veio no formato de uma simples frase. Todas as fotos que ele tinha visto até àquele momento, não eram dela. A partir daquele momento deixou de fazer sentido para ele continuar a fazer o esforço de ignorar as diferenças entre eles e focar-se apenas nas semelhanças. Era como se todas as pequenas contariedades de que ele se tinha apercebido até ali, de repente se tornassem demasiado extensas e impossíveis de remendar. Seria um esforço em vão. Não sentia a mínima atracção pela pessoa exposta na nova foto.
Apesar do desenrolar da conversa, ele nunca chegou a perceber realmente o porquê de ela ter usado fotos de uma amiga que vive no estrangeiro.

sexta-feira, junho 16, 2006

[59 / Redefinitions Of A Little Part Of Our Reality]

Trauma:
estar-se no local errado à hora errada.

Profissional:
alguém cuja média de aprovação se situa acima dos 9,5 e abaixo dos 20 valores.
(Assim se conclui que não há nenhum profissional que tenha o mérito de saber todos os pormenores relativos à sua profissão; houve sempre algo de incompleto no seu conhecimento, por muito bom profissional que o indivíduo seja.)

Desespero:
emoção corrosiva provocada pela confrontação com adversidades colossais.

Relaxamento:
arte a que as sociedades modernas se têm vindo a desabituar.

Resiliência:
algo a que darei sempre as boas-vindas e que espero que nunca me venha a abandonar.

quarta-feira, junho 07, 2006

[58 / Untouchable Design]

Antes de entrarmos não sabemos com que tipo de arte nos vamos confrontar. Pode ser desde a pintura abstracta e impossível de descodificar, até à arquitectura de um molde humano que se encaixa perfeitamente na nossa silhueta.
Os títulos alusivos à exposição são sempre vagos. É preciso pagar bilhete e arriscar presenciar o espectáculo sonoro e visual. Passar as portas da selectividade subjectiva. Deixar passar o tempo.

Desta vez, para além da boa música, também houve exposição clandestina de autênticas peças de design. Divinamente dotadas de um sistema nervoso que lhes confere distintividade e autonomia.
Mas as peças são raras e caras. Não são produzidas em série. Nem estão ao alcance de qualquer um. Intocáveis. Apenas observáveis a uma distância razoável. O deleite é visual.
Gostei de ser espectador, mas talvez no dia em que contratar o álcool para ser o meu gestor de recursos emocionais e comportamentais, sairei da exposição com a certeza de que adquiri uma dessas peças minimalistas, cujo conteúdo não me desiludirá.

sábado, junho 03, 2006

[57 / A Twist In The Particular Final Moment]

Há dias em que pensamos que nada de relevante irá acontecer nos seus minutos finais, a tal ponto que sabemos já que título escolheríamos para resumir o que aconteceu durante o intervalo de tempo em que permanecemos acordados.
Só que esses minutos finais ainda não terminaram. É por isso que nos sentimos completamente desprevenidos para com notícias inesperadas de última hora (ou será de "último minuto do dia"?) que mudarão irreversivelmente as nossas atitudes no futuro...

"This time I'm gonna keep me all to myself" (Björk _ "Pagan Poetry")

quarta-feira, maio 24, 2006

[56 / Cat’s Negativity]

Mas nem tudo foi brilhante. Pelo menos isso foi explícito nos minutos finais do Enterro.
Já tinha nascido o sol. Saí acompanhado de uma amiga de curso, só que houve uma altura em que ela teve de atravessar uma estrada para seguir em direcção ao prédio dela, e eu mantive-me no passeio onde caminhava. À medida que ia reduzindo a distância que me separava de casa, vi que à minha frente seguiam várias pessoas: três rapazes a poucos passos à minha frente e outras pessoas bastante mais avançadas no caminho.
Como estava a andar a um passo mais acelerado que os três rapazes, é natural que os tenha ultrapassado naquela rua com árvores que separa a Universidade do Minho do recinto do Enterro.
Segundos depois constatei que um desses rapazes estava já a caminhar à minha frente. Foi nesse momento que senti um abraço. O meu primeiro pensamento era de que estava a ser abraçado por alguém que me conhece, mas à medida que inclinei a cabeça para olhar para trás, ouvi uma voz masculina irreconhecível. As palavras proferidas pela voz foram “passa”, “para”, “cá”, “a” e “carteira”.
Tornou-se claro. Estava a ser roubado pelo grupo que há segundos atrás tinha ultrapassado.
O abraço nunca o foi. Traduziu-se numa técnica que reduzia a minha mobilidade. Enquanto me debatia, o terceiro elemento retirou-me agilmente a carteira do bolso. Notava-se que havia hábito naqueles gestos. Ainda não tinha começado a dizer que tinha gasto todo o meu dinheiro nas barracas do recinto e já a minha carteira estava aberta, com dois dedos a vasculhar por entre os papéis que lá estavam depositados.
Eles perguntaram pelo dinheiro. E eu continuava a responder que queria a MINHA carteira e que gastei o dinheiro todo nas barracas. Agitava-me de modo a tentar chegar perto dela, mas não conseguia tocar-lhe.
Houve um truque (não intencional) que jogou a meu favor. Não o vou revelar porque não faço ideia de quem algum dia poderá ler estas linhas.
O rapaz que segurava na carteira e procurava pelo dinheiro desistiu de o fazer e devolveu-ma. O rapaz que inicialmente vi a ultrapassar-me nunca me tocou. O rapaz que me tinha agarrado estava agora a dizer-me “Então quero o telemóvel.”.
Levei a mão ao bolso e fiz força para não deixar entrar a mão intrusa.
O revisor da carteira limitou-se a dizer “Deixa-o ir.”. Apesar desta frase mágica, o terceiro elemento não obedeceu e continuava a forçar o meu bolso. Ele estava a ficar para trás porque os outros dois já seguiam caminho à minha frente. Desistiu, não sem antes me tocar com o punho semi-fechado pelo queixo e dizer “Põe-te fino.”.
Passei instantaneamente para o outro lado da estrada e senti-me ridículo por caminhar paralelamente a eles naquela estrada. Dei meia volta e decidi tomar o percurso existente dentro das fronteiras da universidade.
Quando tive oportunidade, olhei para a estrada para tentar memorizar aquelas três caras, só que nunca mais as vi…


E agora pergunto-me: com que legitimidade alguém comete um acto destes? Que frieza tiveram de adquirir para fazer disto um estilo de vida? Não têm noção do impacto que poderiam ter provocado caso eu tivesse maior vulnerabilidade? O que teria acontecido se tivessem escolhido alguém altamente vulnerável? A partir de que momento se deu a viragem entre a fase em que viam os ladrões como pessoas más (certamente já possuíram um dia esta opinião de quem rouba, nem que seja nos tempos de infância em que viam desenhos animados) e o momento em que se dedicaram ao primeiro roubo? O que os leva a ingressar numa actividade tão desprovida de honra e prestígio?
Uma tremenda falta de respeito pelas histórias de vida/sonhos/objectivos/fraquezas/ilusões de quem abordam…

terça-feira, maio 23, 2006

[55 / Cat’s Positivity]

A curva de esquecimento é mesmo inevitável…
Após cada longa noite de Enterro da Gata, acordava e ficava a pensar em todos os pequenos episódios que vivenciei no interior do recinto. Cada um desses episódios fazia com que eu ficasse a sorrir como um parvinho. Eram tantos os sorrisos!...
Hoje tenho a sensação de que notoriamente grande parte desses sorrisos já não existe porque a minha capacidade de evocação acerca dessas fantásticas noites já está numa fase de deterioração. É claro que para este fenómeno de esquecimento, também deve ter contribuído o episódio negativo final (que certamente deve ter ofuscado a evocação de vários episódios positivos, mas isso é outra história que só será englobada no próximo post).
Ainda há fragmentos divertidos memorizados.

fazerem inúmeras propostas de pagamento de bebidas a preços absurdamente baratos
eu próprio tentar pedir shots grátis numa outra barraca, dizendo à rapariga que estava por trás do balcão que eu gostava da maneira como ela se vestia
ter duas irmãs gémeas a suplicarem por dois shots a vinte e cinco cêntimos cada, acabando por serem brindadas com dois shots que incluíam vodka e (muita) cola, para além da cómica troca de frases: “Vocês nunca na vida serão psicólogas!” / “Pois não. Vamos ser economistas!”
uma finalista com uma camisola de curso a dizer “Psicologia Clínica” vem ter comigo à barraca e pede um dos já tradicionais shots a preço de água. Nunca a tinha visto na vida. Disse-lhe que o preço tinha de ser o que estava exposto na tabela. Ela rematou: “Mas eu tirei Psicologia Clínica!!! Não é como vocês, que cá só tiram Psicologia geral! A minha licenciatura é em Psicologia Clínica!! Tu devias ter inveja da minha licenciatura!”. A minha resposta: “Ai é? E onde é que tiraste a licenciatura?”. Ela disse: “Na Gandra!”. Naquele momento, se eu tivesse uma folha a dizer “LOLOLOLOL!”, tinha-a colado certamente na minha testa. Ou talvez mesmo uma das gotas que tenho no meu estojo, feitas em cartolina, para imitar de vez em quando as personagens dos desenhos animados japoneses quando alguém diz uma enorme bacorada. Mas naquela barraca as únicas gotas que eventualmente surgiam eram as que se entornavam dos copos e garrafas com álcool. Limitei-me a explicar-lhe que a Universidade do Minho oferece a melhor licenciatura em Psicologia no país
a minha primeira experiência de tirar um fino foi completamente ridícula. Limitei-me a despejar a cerveja no copo, esquecendo-me de rodar o copo. O resultado é previsível: um copo com muita espuma e pouca cerveja
a primeira vez que me pediram uma bebida menos habitual também foi igualmente inédita. Pediram-me um gin tónico. Peguei num copo, pus gelo e enchi o copo só com gin. O “cliente” aprovou a bebida com satisfação: “Olha. Isto está espectacular!! Só falta uma coisa… Agora põe só um bocadinho de água tónica.”(Acho que é para este tipo de experiências que servem os primeiros turnos de cada pessoa que trabalhou na barraca de Psicologia)
começar a ignorar pedidos de shots grátis, dançando para debaixo do balcão, constatando no entanto que quem queria as "promoções" não se importava de debruçar-se para conseguir continuar a persuadir-me
oferecer um “Psi” (Ψ) do tecto da barraca porque me pediram uma lembrança de Psicologia do Enterro 2006
...aplaudir o facto de a minha amiga Vera ser finalista em Sociologia. Foi um aplauso de parabéns completamente sincero. A recompensa que obtive foi um reconfortante abraço apertado e caloroso que representa a cumplicidade que temos tido desde o nosso tempo de "caloiritos". Para além do abraço, também foi notório que houve a presença de lágrimas femininas pelo facto de este ter sido o último Enterro da Gata da minha antiga geração de sociólogos... (Eu continuarei por cá, Vera... Pelo menos mais um ano.)
ouvir falar de vez em quando do meu profile do Hi5 e do meu blog (A Diana e a Marlene queriam que eu falasse delas aqui, por isso aqui têm o vosso tempo de antena… Hehehe!)
sentir que estava em frente a uma rapariga simpática que me fazia lembrar a Alanis Morissette e que acabou por beber Kalashnikovs sem limão com os amigos
não ter vontade de abandonar o meu turno na noite final quando me apercebi que apenas me restavam dez minutos de trabalho diversão dentro de uma barraca...
...poucos minutos após ter posto a tocar o cd que levei para a barraca com a intenção de ter o privilégio de conhecer as músicas que ouvia enquanto trabalhava, um rapaz apareceu por lá e disse-me: "Parabéns! Acabou de tocar aqui a melhor música de todas as barracas! Continua a pôr na música um desse cd!". Agradeci-lhe e disse que por acaso o cd era meu. Contudo nunca lhe disse que a música número um a que ele se referia, era de facto a música número dois daquele cd (naquela noite apeteceu-me começar com a segunda música)...

(Certamente há muitos mais episódios prestes a assolarem o meu pensamento, por isso nos próximos dias sou capaz de actualizar este post)

terça-feira, maio 16, 2006

[54 / Internal Battle]

O meu corpo tem sido um campo de batalha por parte de microrganismos.
Numa altura em que quase se avista o lado vencedor, fica a noção de que pelos menos três noites do Enterro da Gata já não voltam.
Vou viver a 200% os dias de festa que me restam.

terça-feira, maio 09, 2006

[53 / The Privilege Of Being Given The Chance To Experience A Rushed Heartbeat]

Habituamo-nos tanto à inexistência de relações interpessoais com estranhos que por muito que esse relacionamento seja desejado, simplesmente não encontramos meio de fazer com que ele surja.
No entanto, muitas das vivências que temos são partilhadas com algumas pessoas que por acaso nada nos transmitem. É um paradoxo. Sim. É. Somos forçados a falar com aqueles que pouco nos dizem e forçados a não estabelecer contacto com quem nos transmite uma imagem cativante, mas oficialmente distante. Não há nada que faça com que os nossos caminhos se cruzem e nos levem a ter uma troca de palavras espontânea.
É por isso que aceitamos com grande satisfação cada pequena oportunidade de ficarmos a conhecer mais pormenores sobre as pessoas que secretamente seleccionamos. É por isso que reconhecemos com maior rapidez aquelas faces. É por isso que nos sentimos mais agitados quando estamos em frente a essas faces. É por isso que pensamos nelas frequentemente. É por isso que não queremos acreditar que finalmente chegou o tão aguardado momento de sermos confrontados com a descoberta do profile de uma delas. É por isso que o coração bate descontroladamente quando nos apercebemos de que vamos ser brindados com a informação pessoal dessas pessoas. É por isso que não descansamos enquanto não devorarmos toda a informação que essas pessoas transmitem no profile. É por isso que temos a ânsia de ver/guardar todas as fotos adjacentes. É por isso que tentamos arranjar ideias para fazer com que essas pessoas também se apercebam de que nós próprios temos um profile pronto a ser lido.
É um abanão intenso.


Sentimos verdadeiramente o privilégio de nos conseguirmos "aproximar" daquelas pessoas especiais que infelizmente nos habituamos a ver de perto ao nível geográfico, mas de longe ao nível interactivo. De repente deixam de habitar o mundo dos nossos pensamentos para aparecerem sem aviso prévio no nosso ecrã.
Conseguimos, por momentos, sentir que deixaram de ser tão incógnitas. Aceder àquela imagem física que sempre quisemos ter à nossa frente a qualquer hora. Rever essas faces através de um ponto de vista incrivelmente próximo. Ouvir-lhes o fervilhar das ideias. Ver aquele olhar estático mas intenso a fixar o nosso. Tocar-lhes na pele a que agora temos acesso visual e intemporal. Sentir-lhes a respiração. Apreciar o beijo silencioso.
Tudo isto de uma forma virtual…

terça-feira, maio 02, 2006

[52 / By Request]

Devido à pertinenência de uma questão que me foi colocada num comment, aqui vai a resposta: não gosto da palavra discoteca porque me remete para um ambiente completamente retro (anos 80)...
Soa a uma palavra completamente contextualizada naquela época desactualizada...
Acho que quem opta por chamar outros nomes às discotecas, se sai sempre bem.
Club é um bom exemplo.

terça-feira, abril 25, 2006

[51 / Revealing The Uncountable Topographers]

Quando reparo num topógrafo nas ruas, vejo-me obrigado a procurar o outro topógrafo. É algo a que não consigo resistir. Às vezes bem tento olhar disfarçadamente para o local onde está direccionada a máquina do primeiro topógrafo, mas nem sempre consigo encontrar o segundo.

Estes episódios são fácil e especialmente transferíveis para as discotecas (I hate this word). Refiro-me a vários aspectos:
_ a facilidade com que nós próprios reparamos no interesse que temos por pessoas específicas; tornamo-nos topógrafos prontos a estabelecer contacto visual com outra pessoa;
_ a dificuldade com que a outra pessoa se apercebe que se está a tornar topógrafa: de repente nota que há alguém que olha bastantes vezes para ela, mas não consegue decifrar qual a intensidade/superficialidade do interesse da pessoa inicial;
_ a dificuldade com que conseguimos detectar outros topógrafos na discoteca.

O primeiro aspecto envolve exclusivamente a nossa atracção pessoal, pelo que não nos é nada difícil adivinhar quais seriam as nossas opções na selecção de colegas de trabalho topográfico.
O segundo, nos casos em que o alvo da selecção somos nós, pode envolver bastante coragem por parte da(s) outra(s) pessoa(s), dado que podemos aperceber-nos do interesse alheio através de métodos muito diversos. A divergência nestes métodos é da exclusiva responsabilidade da(s) outra(s) pessoa(s), dado que diferentes tipos de abordagem podem requerer níveis de coragem idênticos, consoante as pessoas. Assim, a “ousadia” de um ser humano fixar o olhar em alguém e deixar-se apanhar repetidamente nessa actividade, pode ser equivalente à ousadia de outro ser humano quando decide tentar estabelecer uma conversa, tendo como objectivo principal obter um nome ou um número de telefone. Por seu lado, alguém que arrisque um beijo, pode sentir o mesmo nível de insegurança/desconforto que a pessoa que está a tentar estabelecer o contacto visual inicial.
O último aspecto é, a meu ver, o mais interessante de todos. Ele ocorre quando nos alheamos desta nossa profissão forçada e tentamos detectar o trabalho exercido pelos outros. De vez em quando temos indícios de que amigos nossos estão interessados em alguém que está por perto, mas não conseguimos fazer ideia de quem seja, a não ser que nos digam quem é. Mas isso nem sempre acontece. E quando tentamos observar estes padrões em pessoas que não conhecemos? Torna-se tudo ainda mais complexo.
Não detectamos receios e incertezas realistas por parte dos topógrafos que estão em nosso redor. Não conseguimos encontrar os olhares cruzados, mas o facto é que eles devem estar a ocorrer durante as nossas distracções. Não avistamos a evolução dos comportamentos que a cada momento tendem a tornar-se mais notórios. Não nos apercebemos da desilusão que um gesto errado pode provocar no outro topógrafo.
Todo o trabalho parece ser feito na clandestinidade, até que de repente a interacção corporal (bem) explícita torna oficialmente visível o processo que tinha estado camuflado. Normalmente esta visibilidade só ocorre quando o comportamento é socialmente irreversível, tal como é o caso da conversa ou de um beijo.

E enquanto nos debruçamos sobre os interesses imperceptíveis das pessoas que estão ao nosso lado, não fazemos a mínima ideia do quão disseminado este fenómeno está, debaixo daquele tecto onde as pessoas dançam e se observam. Não imaginamos a quantidade e diversidade de topógrafos que nos rodeiam. Não sabemos quando é que estamos a impedir fisicamente a troca desses olhares (quer distraindo um dos topógrafos, quer colocando-nos acidentalmente entre eles os dois - é nestes momentos que nos tornamos lixo visual para os dois topógrafos que tentam a todo o custo arranjar um novo local estratégico). Nem sequer temos consciência de que se existisse um fio de conexão entre cada olhar que se cruza interessadamente, estaríamos certamente envolvidos num casulo gigante.

[50 / About The Difficult Task Of Transmitting An Intimate Insight]

Há claramente um desfasamento entre a grandeza dos insights que experiencio e aqueles que consigo veicular nas minhas frases.
Mesmo aqueles que são focados aqui, nem sempre são descritos da forma exacta como os vivencio...
Deste modo não é difícil comprovar que apesar da intimidade de alguns posts, continuarei a ser sempre aquele que melhor os conhece.

terça-feira, abril 18, 2006

[49 / Reciprocity]

É gratificante quando os gigantes dedicam algum do seu tempo a responder aos nossos elogios.

domingo, abril 16, 2006

[48 / The Very Few Deities Who Share Their Life With The Rest Of Us]

Teimo em cair no erro de glorificar caras indescritivelmente bonitas…
Há situações em que sinto pena dessas pessoas por não conseguirem rodear-se de pessoas igualmente belas. Devem olhar em volta e nada lhes deve dar interesse.
Vejo-as como autênticas ilhas isoladas e inacessíveis. Para mim é legítimo que nos desprezem.

Mas a verdade é que essas pessoas se adaptam a nós. Porque o fazem? Porque não se deixam tornar completamente independentes? Porque se adaptam às mesmas lógicas de pensamento que nós? Porque têm também de se confrontar com pessoas que não gostam delas? Como é possível que alguém não goste delas? Porque têm de viver misturadas connosco? Porque não têm a vida facilitada? Porque partilham connosco a capacidade de se tornarem reféns de críticas destrutivas? Porque respiram o mesmo ar que todos nós? Porque conseguem sentir emoções negativas? Porque comunicam connosco? Porque não são tratadas como seres superiores? Porque é que também sabem o que é a vertente prática de uma depressão? Porque procuram a felicidade em nós? Porque se deixam apaixonar por pessoas que não atingem o seu nível de beleza? Porque são forçadas a ter histórias de vida banais?
A vivência connosco parece não trazer qualquer benefício...

Só encontro uma explicação plausível: o interior não deve estar ao mesmo nível supremo que o exterior.
A verdade é que gostava de encontrar alguém que refutasse esta teoria. O meu mais puro fascínio surgiria a partir desse momento.

sábado, abril 15, 2006

[47 / Physical Attraction]

Finalmente consigo explicar o meu fascínio por olhos claros.
Descobri que o mérito não advém exclusivamente da tonalidade da íris, mas sim do facto de se conseguir observar a pupila a uma distância razoável.
É por isso que há certos tipos de olhos castanhos que também me cativam.

Falta ainda saber explicar a razão para o meu interesse recente em cotovelos...

quarta-feira, abril 05, 2006

[46 / No Barriers Imposed On Strangers]

Este semestre aprendi que a fala não é um processo automático (ao contrário do que ocorre com a leitura).
Contudo, ontem passei por uma experiência que quase abriu uma excepção a essa teoria.
Estava a caminho de casa quando de repente vejo uma cara conhecida da universidade. A cara de alguém com quem me cruzo bastantes vezes, tanto no campus, como nos bares para onde costumo ir de noite. Como se isso não bastasse, tenho também o hábito de incluir essa cara nos meus pensamentos, de tempos a tempos.

E ontem voltámo-nos a cruzar. Olhámo-nos e abri a boca. Não proferi a expressão "Olá!" porque me contive nos milésimos de segundo finais.
Não é que tivesse algum mal o facto de nos cumprimentarmos, mas seria completamente despropositado, até porque nunca nos falámos durante estes anos todos (apesar de ambos termos sido apanhados em flagrante quando de repente o Hi5 começou a enviar newsletters com as pessoas que visitam os profiles de cada um).
Aliás, até teria sido interessante ver o desenrolar da situação caso eu não me contivesse a tempo.

Pessoas que me passam pela cabeça várias vezes por semana...
É natural que quando as veja de repente, as confunda por breves instantes com as pessoas com quem lido e cumprimento habitualmente.
Silly brain !

quinta-feira, março 30, 2006

[45 / Throwing Pigs To Pearls]

A minha propensão para relaxar era enorme.
Peguei numa cadeira, pu-la na varanda e sentei-me a apanhar sol enquanto ouvia música.
Não levou muito tempo para que me abstraísse do local onde me encontrava para ir de encontro ao significado das palavras inglesas que ouvia melodicamente. Só o vento frio e intermitente parecia querer trazer-me de volta para a realidade.
Num desses regressos vi que uma mulher estava na varanda do seu apartamento, uns prédios mais à frente. Estava de pé, com a mão no corrimão da varanda e a olhar em frente. Quis saber que paisagem estaria ela a ver. Nada… Não havia nada de especial na paisagem para que ela ficasse a admirá-la durante muito tempo.
Foi então que dei por mim a fazer o processo inverso: olhar-me através da varanda dela. A minha paisagem era exactamente a mesma (a única diferença era o ponto de vista): um festival de tijolos, cimento, tábuas de madeira, areia, andaimes, ferro, uma grua, poças de água suja e outras coisas feias que estão destinadas a fazer parte integrante de um novo prédio bracarense cujos apartamentos serão vendidos a preço de ouro.
Perante um cenário destes é quase ilegítimo termos prazer em estar numa varanda para nos abstrairmos. Dei por mim a cair na realidade: quantos de nós têm de se limitar a viver em caixinhas feias e padronizadas, independentemente da pessoa que somos, dos ideais em que acreditamos, das aspirações e objectivos que temos?... É a isto que se chama viver numa cidade? Será este o sonho urbano?

quarta-feira, março 29, 2006

[44 / Simple Questions, Hard Answers]

Porqué é que é mais fácil aprender a desconfiar do que a confiar?

Porque é que é mais fácil criticar do que elogiar?

Porque é que é mais fácil o processo de distanciamento entre duas pessoas do que o de conhecimento mútuo inicial?

sábado, março 25, 2006

[43 / (Not) Together]

Algures neste planeta está a pessoa por quem sempre ansiei.

És capaz de me estar a procurar neste momento, mesmo sem me conheceres. Olhas em volta mas só vês fontes de desinteresse perpétuo (pelo menos para a especificidade subjectiva dos teus gostos).
Aprisionado pela distância geográfica, eu sinto-me impotente por não poder estar aí e conseguir estabelecer a minha influência periférica. A difusão mútua das nossas influências seria tão intensa que nunca se apagaria das nossas memórias e a sentiríamos sem precisarmos de cientistas para o comprovar.

Mas vamos morrer sem nunca nos vermos. Nunca terei a imagem precisa do teu rosto. Nem tu do meu.
No entanto temos a perfeita noção de que existimos. Somos a melhor fusão que a contemporaneidade nos conseguiu arranjar.

Penso em ti a conformares-te lenta e sequencialmente às três leis que se abatem sobre todos nós. A que ser humano incompatível darás o privilégio da tua entrega?

Agora _ Eis o filtro supremo que nos limita à nascença a miríade de potencialidades amorosas. Somos obrigados a fazer a nossa selecção no âmbito da população que vive o escorrer dos nossos dias. Quem me garante que nascerá daqui a um século a personalidade que mais fascínio traria ao meu cérebro? E quem me garante que ela afinal já morreu há séculos? Terá morrido no dia em que eu nasci? Nascerá no dia em que eu morrerei?

Aqui _ O filtro que nós já conseguimos manipular, ainda que de forma muito rudimentar. Na contemporaneidade que nos invade, existirá certamente alguém que sobressai. Essa pessoa pode nem chegar ao nível impressivo obtido por “concorrentes” que a História se encarrega de nos desencontrar, mas é a ideal por entre toda a gente actual no planeta. Qual a distância a percorrer para a encontrar? Que nação defenderá? Que língua e cultura impregnam os seus pensamentos? Poderíamos viajar incansavelmente e no entanto as hipóteses de não a tocar com os olhos são estatisticamente significativas e desanimadoras.

Disponível _ O fosso em que todos caímos. Provavelmente apenas uma fatia microscópica da população mundial evita esta lei. Provavelmente essas pessoas felizes são as que preenchem hoje as lendas que percorrem as bocas do mundo. Provavelmente esses deuses e deusas mortais souberam desde o primeiro olhar cúmplice que tinham escapado às três leis, especialmente gratos por não se submeterem à infelicidade causada pela aleatoriedade intransigente da lei “agora”. Provavelmente. A lei da disponibilidade traduz-se no conformismo puro. Conformismo por nos adaptarmos às pessoas que nos rodeiam. Não ao nível da amizade, mas ao nível do amor cego e verdadeiro. Como é fácil sermos subjugados à comodidade entorpecedora desta lei. Como é fácil sucumbirmos à felicidade não-extrema. Acata-se o facto de vermos alguém minimamente interessante que passa em frente ao nosso olhar [que não deixa (nem deixará) de procurar saciar-se] e imaginamo-nos a viver com ela. Pessoa interessante? Sim! Com ligações significativas com outrem? Não. Sim. Talvez. Então procuramos entrar em cena. Seja antes do início do primeiro dos romances, ou depois do mais recente divórcio. Ascendemos na hierarquia e pensamos erradamente que a cada passo que damos, atingimos o pico. A passagem do tempo acabará por nos confirmar o que recusamos ver inicialmente. Fazemos tudo isto, completamente alheios (à excepção de alguns casos) ao pensamento que nos grita “Estás bem longe daquilo que poderias ter alcançado… Não sucumbas!”.